quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Meeting Besta-Fera - Final

(leia a primeira parte aqui)

Percorremos o caminho entre o Degas e a casa do Rob sem problemas. Nenhum ser bizarro apareceu, estranhamente. Nenhum porteiro louco. Nenhuma síndica criadora de porcos no porão. Tudo isso foi encarado por mim com naturalidade, com alegria até, pois eu acreditava que tratava-se apenas de sorte. Mais tarde eu chegaria à conclusão de que toda aquela calmaria era um sinal de que algo muito ruim estaria por acontecer.

No elevador, tranqüilos, conversávamos sobre banalidades. Rob queria muito me mostrar seu novo aparelho blu-ray, aquele, que deixa os filmes com “o som muito mais de-fi-ni-do”, segundo ele mesmo. Eu, que sempre tive medo de cachorros, não me preocupava com a presença de Besta-Fera, achando que ele era apenas um cachorro dócil, cujas histórias contadas no Champ não passavam de gracejos literários de seu dono insano.

Chegamos ao apartamento. Rob pôs a chave na porta e imediatamente ouvimos os passos rápidos que vinham do lado de dentro. A tranqüilidade sumiu do rosto de meu primo, que pela primeira vez em muitos anos exibiu receio no olhar. Eu, então, já tinha as pernas moles de pavor. Rob entrou no apartamento, falando qualquer coisa; meu primo e eu entramos logo atrás, quase ao mesmo tempo, e talvez seja verdade aquilo sobre os cães sentirem o medo, pois entre os dois alvos disponíveis, Besta-Fera não teve dúvidas: escolheu a mim.

Seria injusto dizer aqui que foi uma batalha épica, ou uma luta árdua entre animal e homem menino, pois isso significaria algum tipo de ação da minha parte, e isso definitivamente não aconteceu. Besta-Fera me atacou com fúria, sentindo o cheiro de meu sangue, não me dando a menor chance de reação. Seus dentes afiados perfuravam meus braços, enquanto suas patas arranhavam-me por onde passavam.

O ataque deve ter sido ainda mais forte do que penso, porque em certo momento comecei a delirar. Enquanto o cachorro me mordia sem dó, às vezes se concentrando, estranhamente, em minhas meias, comecei a ouvir cenas de O Poderoso Chefão, assim como a música tema de filmes como o próprio Chefão, Coração Valente, e O Bom, O Mau e O Feio.

É triste ter que admitir aqui, também, que o Rob me decepcionou bastante. Ao ver que eu era cruelmente atacado por seu cachorro, não passou por sua cabeça me ajudar. Muito longe disso. Enquanto Besta-Fera fazia o que podia para comer meus rins, Rob decidiu conversar com alguém, não sei se pelo telefone, ou pela sacada do apartamento. Só sei que era um tal Arthur.

“Rob! Me ajuda aqui, Rob! Faz ele parar!”, eu gritava, desesperado.

E ele continuava falando com o tal Arthur. Às vezes até gritando, talvez para tentar me mostrar que eu atrapalhava a conversa. Eu esperava mais de um amigo, confesso.

Meu primo, que desde a hora em que entramos no apartamento parecia ter incorporado o espírito de Fredo Corleone, finalmente saiu do choque e entrou em ação. Achou um pedaço de trapo jogado no apartamento, chamou a atenção do cachorro, e jogou para longe. Tentei me levantar, apoiando-me nas almofadas do sofá (aliás, Rob, tem um isqueiro azul ali), e tive alguns segundos de esperança de vida, nos quais pude olhar rapidamente o apartamento de Rob Gordon:

Filmes e Coca-Cola. Não há nada além disso lá. Em todo o apartamento, só há filmes, artigos relacionados a filmes, e Coca-Cola. Milhões de litros. Vi, no que deve ser a cozinha, algo parecido com um fogão, mas devido a meu estado naquele momento, e ao fato de Coca-Cola não precisar ser cozida, creio que tenha sido uma alucinação.

Quando estava quase de pé, Besta-Fera percebeu minha movimentação, e imediatamente parou de destruir o pedaço de pano, voltando a sua tentativa de me destruir. Pulou sobre meu peito, me encarou, com um olhar frio, e então eu apaguei.

eu vi a morte de perto, e ela tem o focinho gelado

Acordei num leito de hospital, com um grande curativo em meu pescoço e vários arranhões em todo meu corpo. Meu primo, que bebia uma cerveja, me entregou um pacote. “O Rob pediu pra te entregar. Ele pediu desculpas pelo ocorrido.” Abri, era o box de quatro DVDs de O Poderoso Chefão – The Coppola Restoration. Muito obrigado, Rob, pensei, mas talvez você devesse dar isso para seu grande amigo Arthur.

Saí do hospital cheio de dores, tomando um dorflex a cada doze segundos, em média, com uma única certeza: tão cedo eu não volto à casa de Rob Gordon.


Tyler Bazz

18 comentários:

George Marques disse...

Fazia tempo que não lia os blogs da vida.... Espero que se recupere do encontro constrangedor com a Besta-fera....

Rafiki disse...

Não pode ter sido tão ruim assim.

Marina disse...

Sério, o Besta-Fera fez isso? Não acredito.

MaxReinert disse...

huahauhua...ódio de vc! Não é qualquer um que tem a atenção do Besta-Fera.

Natalia Máximo disse...

Quanto mais leio sobre a Besta-Fera, mais tenho vontade de conhecê-lo. É, eu dou gargalhadas na cara do perigo.

BiaAa AlpEr ! disse...

Besta-fera me assusta; muiito!

Bruno disse...

Isso lá em casa chama bichice.

:P

Daniela disse...

Será??

Nadia disse...

"eu vi a morte de perto, e ela tem o focinho gelado"

Drama, drama, drama... mas confesso que acredito em você.

Rob Gordon disse...

"Eu, que sempre tive medo de cachorros..."

Então, era por isso que você mal se mexia, e apenas balbuciava uma palavra ou outra?

"Em todo o apartamento, só há filmes, artigos relacionados a filmes, e Coca-Cola."

Não, não. Tem quadrinhos e heavy metal também. Se você não estivesse imóvel e se borrando, teria visto isso.

E valeu pelo toque do isqueiro, realmente encontrei ele ali, mas estava sem fluido. Besta-Fera fdp.

Novas visitas serão bem vindas, especialmente se precedidas de novas picanhas, cara.

E, claro, Arthur manda abraços.

Thaís Vidal disse...

OMG! Você conheceu o Besta-Fera!!! Apesar de toda dor e sofrimento, gostaria de estar no seu lugar! :)

Jullia A. disse...

dahisuhd eu duvido que o besta fera faria algo do genero.
ri litros com o " eu vi a morte de perto e ela tem o focinho gelado"

Jullia A. disse...

dahisuhd eu duvido que o besta fera faria algo do genero.
ri litros com o " eu vi a morte de perto e ela tem o focinho gelado"

Luma Santos disse...

AAAAAHAHAHAHAHAAH
Cachorros sabem exatamente quem tem medo e atacam. =P

Isadora disse...

"Achou um pedaço de trapo jogado no apartamento"

Ok. A história é real mesmo.

Anônimo disse...

HASUASUSAUHSAHUIUHHSAUA ri muito, posso imaginar sua cara em todas as cenas

Kel Sodré disse...

nha... Queria fazer parte do clubinho... Mas não vou, porque sou menina e nem moro - nem tenho acesso fácil a São Paulo. Droga de vida!

Bonaldi disse...

CA-RA-LHO!
Se não fosse com vc, seria comigo. Certeza.