terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Uma síndrome em Estocolmo.

ao som de The Wave Pictures


Nevava demais lá fora e eu tive que cortar o passeio pela metade e ficar dentro do albergue, deitei na cama com a luz de leitura acesa a um palmo do meu rosto, me queimando. Algumas camas vazias, outras só desocupadas, e em uma delas alguém de algum país da Ásia dormia e roncava alto o suficiente pra não me deixar pensar. Tentei alcançar os fones de ouvido na mochila, mas entre a cama e o teto são só cinquenta centímetros, o que torna a tarefa muito mais difícil do que se possa imaginar. Quando consegui, a canadense de uma das outras camas entrou e sorriu e começou a conversar e eu desisti de ouvir música e pensei se valia a pena tentar, mesmo que na noite anterior ela não tenha parado de falar no namorado nem por um minuto, mas logo o irmão mais novo dela chegou também e me olhou com a mesma cara que tinha me olhado na noite anterior quando reparou que eu não tirava os olhos dela. Alguma coisa nela me lembrava você; não era físico, era algo no jeito, nos trejeitos. Saíram os dois e eu fiquei perdido pensando em coisas que agora não lembro ou não quero contar, ouvindo o ronco do china até decidir ir pro bar.

Lá eu cheguei e vi o computador e você tinha escrito contando da sua vida e eu me distraí lendo e quando vi já era noite, às quatro da tarde. Pela diferença de horário você devia ainda estar dormindo e sonhando com algo que fosse qualquer coisa que não eu. Tentei responder, mas sentia que não tinha nada meu que te interessasse saber e não quis incomodar e resolvi sentar numa mesa perto da janela do barco, que era o albergue, e fiquei olhando a água e as luzes da cidade lá do outro lado e a neve que caía ainda tão forte, e comecei a prestar atenção nas letras das músicas que estavam tocando e era tão bom que eu senti vontade de escrever algo que soasse como aquilo, com aquele ritmo, e aquela voz, mas sem ter música e sem cantar nada. Quis escrever uma crônica que parecesse uma carta, que eu podia te mandar pelo correio, quando descobrisse seu endereço, ou não mandar nunca e guardar pra quando alguém quisesse lançar um livro com as coisas que eu escrevo, ainda que eu nunca ache que isso vá acontecer. Comprei uma cerveja e fui bebendo e abri o caderno e fui escrevendo.

Clap, clap-clap.

Eu te amo feito louco, eu sinto saudade o tempo todo. Não é ótimo isso? Foi a banda que escreveu, mas podia ter sido eu. E cada verso que a banda cantava me lembrava você e só e mais nada e eu tentava me concentrar e escrever mas era tanta coisa passando pela minha cabeça que não dava. Coisas que eu vi, que eu li, que me disseram e que eu imaginei, pra não falar das que eu mesmo vivi e senti e gostei. E era um esforço enorme não parar de escrever só pra ficar pensando se você realmente falava muito de mim e sentia falta e sentia também raiva ou tristeza ou alguma outra coisa não muito alegre quando pensava em como as coisas podiam acontecer em horas tão estranhas. E em certo momento eu só olhava pela janela pensando em tudo sobre você e vi meu reflexo no vidro e percebi que eu sorria, e era tão ridícula a cena que eu me prometi que se um dia eu comentasse a cena com alguém eu ia dizer que sorria de felicidade por finalmente estar lá onde eu tanto quis estar, mas aqui eu posso escrever que era sobre você porque, se for uma carta, você vai saber de qualquer jeito, e se for uma crônica é só uma história que eu inventei.

Me obriguei a parar de sorrir quando entrou mais alguém no bar, porque a pose toda de escritor solitário amargo ia por água abaixo se eu tivesse um sorriso bobo no rosto. A música cantava em primeira pessoa que eu pensei em você no aeroporto e que eu ainda pensava em você no avião, e então eu desisti de tentar disfarçar qualquer coisa e passei até mesmo a cogitar terminar o texto e te ligar e recitá-lo pra você, e falir, ou mandar na mesma hora que acabasse, porque aquelas músicas eram tão sobre você que eu podia ter escrito e cantado todas elas. A menina que trabalhava no bar começou a falar com o cara que tinha entrado e ela contava uma história super legal sobre seu nome e eu comecei a prestar atenção e me fez certo bem não pensar em você por trinta segundos, e foi uma salvação também, porque logo depois a música cantou que eu pensei em você na Suécia, como eu tinha pensado em você por toda a Espanha, e ali eu parei com tudo, porque eu não fiz outra coisa em Madri e Valência e Barcelona e Salamanca que não fosse pensar em você.

E eu já não pensava na canadense linda que tinha algo que me lembrava você, e eu não dava a mínima para a sueca loira e bem bonita que tinha o nome tão legal e me servia agora mais uma cerveja no bar do albergue, e eu não pensava em mais nada. Só em você. Ou só na gente, ou no que não era a gente, no que podia ter sido, no que foi, no que nunca chegou a ser, que me quebrava e que talvez te causasse algo também e ninguém entendia a confusão toda que se passava comigo e quem sabe até com você. Me dê a sua mão eu amo suas mãos. E eu bebi uma cerveja e outra e mais uma e fui bebendo até que a tarde escura feito a noite virou noite de verdade e eu bebi mais e andei pelo hostal que é como eles chamam hostel na Espanha e fui pra fora e senti o vento congelar minhas mãos e meu rosto e eu já não tinha o ritmo das músicas nem as letras legais, mas não fazia mesmo sentido ter nada daquilo sem você.

E quando a cerveja já me fazia achar que aquelas coisas que antes eram desinteressantes pra te contar tinham se tornado interessantes eu voltei para o bar, pra te escrever. Mas eu cheguei lá e a canadense estava no computador, provavelmente falando com o tal namorado; e eu olhei pra ela e ela sorriu e foi simpática como sempre e eu não falei nada, só "thank you", e fui para o quarto e me enfiei na cama para dormir. Antes de apagar ainda vi ela entrar no quarto com o irmão, se arrumar para dormir também e me dizer "you're welcome." Ouvi mais uma música que me fazia pensar em você, mas só conseguia pensar nos versos da última música que ouvi no bar, que cantavam que nada pode mudar o que eu sinto por você, e peguei no sono, torcendo para ter sonhos bons.


Tyler Bazz

15 comentários:

MaxReinert disse...

Interessante!
Ninguém morreu.
Não há crime, nem mistério!
O que será que anda acontecendo ao Sr. Tyler?
Interessante.....

Natalia Máximo disse...

Que bonito :)

Rob Gordon disse...

Se um texto seu fosse escolhido para representar a humanidade e ser colocado numa sonda espacial (sim, eu estou estupidamente nerd hoje), já teríamos um vencedor.

mari disse...

que texto mais lindo. fiquei lendo e pensando... aí pra não falar besteira vou fazer disso a minha conslusão: http://www.youtube.com/watch?v=rPrCHE_zbdc

:/

[agora um segredo: sinto uma pontinha de tristeza quando lembro que um dia, no passado, eu saberia pra quem vc escreveu esse texto. hehe.] beijo.

disse...

Escrevi e apaguei umas 10 vezes o comentario que ia fazer pra esse texto. Não vou nem perguntar se, no final das contas, é uma carta ou um conto pq sei beeem a resposta. Como diria a Solange, Muito bonito menino Tyler =)

Bia disse...

Eu, lacônica: empatia!

Varotto disse...

Bonito...

E triste...

Mas bonito...

Marcello disse...

Achei muito foda a construção do texto, sinto uma sensação de botar-pra-fora-logo-tudo-o-que-to-sentido e tal...


Uma sensação de pressa, perhaps..

Mari Hauer disse...

Fui lendo o seu texto e comecei a me perguntar quantas e quantas vezes senti a mesma coisa por alguém.

Foram muitas. Eu me perguntava se tudo aquilo que eu sentia o outro sentia também. Porque era tão forte, tão sincero, tão intenso...

Quero acredita que a saudade do texto e todos os pensamentos urgentes tenham sido recíprocos, diferente de todos os meus casos.

Um beijo! Lindo texto!

Thaís Vidal disse...

Como comentou Marcelo, também senti essa sensação...uma certa urgência...o ritmo me envolveu tanto que pude imaginar seus pensamentos...
Ou seriam os meus?
Gosto quando ocorre essa fusão de sentimentos, quando leio e misturo tudo dentro de mim...

Bruno disse...

(baah... me arrependi por ter demorado tanto pra ler esse)

Pra um cara escrever uma coisa foda dessas bonita dessas que expõe tanto dele dessas é porque, putz, ele a ama.

Nadia disse...

O grande problema do ser humano é que a gente ainda se nega a aceitar o óbvio e tomar a atitude que a gente sabe que é a correta, correr os riscos que valem a pena.

mas... tah bunitinho o texto.
xDD

Camila disse...

sou sua mais nova seguidora.
não tenho blog, orkut, twitter, facebook, nem uma das milhares variações das categorias.
só msn.
mas amo visitar blog's como o seu, interessante, viciante, que prende a atenção na leitura e nos faz querer ler desde os mais novos posts até quando o blogueiro começou a postar.

Abraços...

^^'

Jullia A. disse...

Esse é o tipo de amor que eu admiro.
Quando eu crescer, eu vou amar assim.

Bonaldi disse...

Genial.