sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sob o Capô

Viajava sozinha num carro que devia ter pouco mais que seus dezoito anos, de motor forte e pintura descascando, o carro. Os dezoito anos dela garantiam pele perfeita, macia, além de um motor também forte, por assim dizer. Cruzava a estrada acima da velocidade permitida, se divertindo com o desenho que os faróis dos carros no sentido inverso, congestionado, formavam, ouvindo no rádio rocks e souls e funks, cantando alto, quando o motor resolveu falhar e apagou, sem gasolina.

Manteve-se calma. Parou no acostamento sem diminuir o volume do rádio, só o da própria voz, e sentou no capô do carro, cantando baixinho, olhando os faróis e as estrelas, esperando ajuda. Alguns carros passaram sem parar, só iluminando a garota de olhos verdes sobre o motor, com uma saia que ia até os joelhos, os pés brincando no ritmo das músicas, os cabelos louros no ritmo do vento. Uma caminhonete parou, desceu um homem com seus mais de quarenta anos. Que ele não me dê dor de cabeça, ela pensou.

O homem se aproximou e a garota mostrou seu melhor sorriso. Percebeu que o cara ia gostar de conversa e contou a história toda: estava indo visitar a avó, que não via há muito tempo, sua mãe a deixou com o carro pela primeira vez, ela resolveu passar por algumas cidades no caminho, esqueceu completamente de encher o tanque, a gasolina acabou. Ele até tentou uma gracinha, que ela repeliu com classe. Perguntou então se ele não podia emprestar um pouco de combustível, o suficiente para chegar até o próximo posto, ela pagaria mais do que o preço normal. Ele encheu um galão e não cobrou nada. Ela agradeceu com seu segundo melhor sorriso e arrancou, certificando-se de que ele não a seguia.

No porta-malas do carro, sem desconfiar de nada, a mãe da garota, amordaçada e dopada, respirava com dificuldades; as mãos amarradas nas costas e a cabeça apoiada num saco plástico, onde o pai da garota descansava, esquartejado.


Tyler Bazz

21 comentários:

linafuko disse...

ai credo... q medo... =/
isso me lembra algumas histórias do Max, sem contar o misterio da Carolina Villenflusser

linafuko disse...

ai credo... q medo... =/
isso me lembra algumas histórias do Max, sem contar o misterio da Carolina Villenflusser

Jullia A. disse...

Ca-ralho. (eu sei que divide ca-ra-lho, mas é uma dividão de intonação, não de sílabas)
Caralho caralho caralho.
Genial.
Só tenho uma coisa a dizer: Espero não te encontrar na rua (:

Jullia A. disse...

divisão

Marcello disse...

Brilhante. Nada mais.

Rob Gordon disse...

Você não tá bem, né?

está melhor que o pai da menina, mas não está bem.

Larissa Bohnenberger disse...

Ai, cruzes!
Tá macabro, hoje, heim?
Bjs!

P! disse...

HAHAHAHAHAHA
Que coisa mais Suzane Von Richtofen ( ou sei la como escreve o nome dela ). Voce e muito bizarro. Adorei!

ticoético disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ticoético disse...

foi o tipo d coisa q li até o fim do terceiro parágrafo e pensei em comentar: "tá, e daí?!" ,mas aê veio o quarto e o resto todo mundo q leu sabe,mas uma coisa me deixou inda encucado...o nome não deveria ser "sob o porta-malas"?!? ,bem,d qualquer forma,ficô foooooda !

Fernando R. Silva disse...

Putz, muito bom! Muito bom, Tyler!

Lembrei de Muito Gelo e dois dedos d'água, fime nacional com Mariana Ximenes, que lembra muito a Richthofen da tua história.

Abraços, meu querido!

Nadia disse...

uau... adoooro assassinatos cometidos por pessoas de quem ninguém desconfia.
xDDD

Cissa disse...

tenho medo! =O
de verdade!

Gabriel Leite disse...

Muito bom. Essas meninas malvadas vivem ocupando meu imaginário. Imaginei a abertura de um filme noir.

Varotto disse...

Pelo menos ela teve a consideração de apoiar a cabeça da mãe para minimizar o desconforto.

Não é só porque seus pais estão esquartejados, ou dopados e amordaçados, que eles não merecem um pouco de consideração.

Mudando de assunto, cara, estou até com medo de um dia vir a dividir uma picanha com você.

Marina disse...

E eu pensando que era a "pobre" menina que ia parar sob o capô. Mas acho que era previsível demais para um texto seu.

Ainda bem que eu moro longe...

Bonaldi disse...

BOA Sr. Tyler !!!! (depois eu é q mato todo mundo nas histórias, qdo os personagens já não estão mortos...)

Géssica disse...

Muito Bom!
Totalmente imprevisível, simplesmente, adorei!

Beijos!

Deisinha Rocha disse...

uns dias romântico, outros arrepilante...

esse é o tyler que eu gosto...

Leandro disse...

o final é no minimo imprevisivel :-)

Leandro disse...

o final é no minimo imprevisivel :-)