sábado, 26 de setembro de 2009

No Fim

Olhava fixamente para aquela foto dela, sua favorita, aquela que ele nunca se cansava de olhar, do sorriso aberto, espontâneo, feliz. Não conseguia parar de olhá-la, e nem queria. Não enquanto ainda não entendesse, ou aceitasse, que a tinha perdido. Os olhos dela pareciam pedir para que ele falasse, mas ele não falava, acreditava que ela não queria ouvir. Puxou o caderno e uma caneta, abriu em uma página limpa, começou a escrever.

"Você não pediu permissão pra entrar na minha vida. Quando vi, já era parte dela. É justo dizer que você nem podia pedir, nem avisar, nem nada. A gente não controlou nada disso e, quando vimos, já não éramos duas pessoas, mas sim uma dupla. Depois daquele começo de não gostar um do outro, viramos melhores amigos, já que não tínhamos idade pra ser nada além disso isso, e quando alcançamos a idade de ser algo mais, fomos.

Os melhores anos da minha vida foram com você. Tanto pelas milhares de vezes em que a gente concordou e pensou e agiu igual, tanto pelas outras milhares em que a gente discordou e brigou. Até nossas brigas eram boas, e me fazem falta agora. Tudo me faz falta agora. Cada pedaço do seu corpo, cada tom da sua voz, cada cheiro seu e cada resposta mal-humorada trocada de manhã. Não vale mais vir aqui e escrever que eu te amo e falar da sua importância na minha vida. Você não quer mais ouvir. Não vale a pena falar da minha tristeza, você só acreditaria vendo, e você deve saber que eu já chorei rios, mas sem deixar sair uma lágrima que fosse. Porque você me conhece melhor do que eu.

E exatamente por isso você não tinha o direito de ir assim, de repente, sem pedir permissão também. Sem me deixar entender, sem chance de voltar, sem nem mesmo me dizer alguma verdade. Você foi e eu fiquei, e agora só me sobrou essa foto sua, que eu não consigo parar de olhar e pensar em como seria e porque não foi e tudo mais. Não, você não tinha o direito. E eu quero te odiar por isso."

Com a primeira lágrima cruzando o rosto ele arranca a folha do caderno, dobra, deixa junto com uma flor sobre o túmulo e vai embora.


Tyler Bazz

15 comentários:

Anônimo disse...

:|

Nadia disse...

Nossa... =/
Fiquei tocada.

BiaAa AlpEr ! (Eámanë Amandil) disse...

Eu chorei! Siim! Entendo o que o rapaz da carta está passando; e pior que isso é só quando a pessoa está viva e quer estar morta pra você;Isso sim é terrivel!

=/

Jullia A. disse...

É, eu já vi essa foto.

MaxReinert disse...

...porque no fim, só a morte é inevitável!

Dalleck disse...

Como em outras raras vezes, esse texto conseguiu me deixar emocionado de verdade e sentir todos os sentimentos, diretos e indiretos.

Gabriel Leite disse...

Eu não esperava por isso mesmo! Me surpreendeu e me deixou melancólico.

Bel Lucyk disse...

Muito bom o texto! O final foi surpreendente. Lindo.

Cissa disse...

putz.

não sei qual das ausências é a mais difícil de aceitar: uma inevitável como esta, ou outras - também inevitáveis - cujas impossibilidades são outras.

lindo o texto.

Fernando R. Silva disse...

Realmente não é à toa que chamamos de falecido ou falecida nos ex. A semelhança é muita. E ele escreveu um puta primeiro parágrafo, dá licença, viu.

Certeza que ela apareceu no sonho dele na mesma noite.

ticoético disse...

é ,as pessoas morem.
excelente.!

ticoético disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ticoético disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ticoético disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Deisinha Rocha disse...

tyler, querido, tenho uma história pra te contar...

uma pessoa, dessas q a gnt passa a chamar de ex, disse pra eu vir aki e ler este texto, pq ele gostou, achou parecido com ele, e talz...

tô meio pasma, agora! Com o final...