sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Contramão.

Sob o forte sol do deserto, o motor v8 queima gasolina e mostra sua força, tipicamente americana, nascida no fim dos anos 60 e já com mais de quinze anos, mas que ainda tem fôlego para cortar o país nas estradas antigas, rachadas como a tinta branca que cobre o carro. Pista e pneus se fundem, tornam-se uma coisa só. A música toca alto no rádio, a voz do locutor é a única companhia, inconstante, passageira. Atrás do volante, olhos vidrados no horizonte fixam um destino às vezes incerto, mas que está lá. O herói enfrenta os perigos e a solidão para fazer o que tem que fazer, seja lá o que for. Road movie.

Eis um puta começo pra história de estrada, tanto que não são nem um nem dois os exemplos parecidos na literatura, no cinema, até na música. Mas essa história aqui não tem muito a ver com nada disso. Sem motor potente, sem sol forte, sem deserto real. Nosso motorista não tem aqueles olhos vivos; por trás dos óculos de grau, uma vista míope olha com atenção o movimento à sua volta, esperto, sim, evitando qualquer tipo de acidente. Não há pressa, não há vontade de chegar. Nem mesmo os pedágios da estrada paulista incomodam. Diminuir não é um problema, parar não é um problema.

O sol acaba de se por no horizonte e a noite vem cruel. As músicas no rádio são tão ruins que ele prefere desligar, canta sozinho, em silêncio, seus blues favoritos. Dirige sem gosto, contra a própria vontade. Está indo quando queria voltar. Sente saudade do que fica pra trás, do que teve, do que poderia ter tido. Saudade não é bom. Chuva na estrada não é bom, atenção redobrada, parada para reabastecer. Café.

Vida besta, pensa. Que merda, que saco! O fraco motor do carro não atende ao desejo por mais velocidade. O carro, cheio de papéis, documentos, lixo, segue frágil sob a chuva. Queria fazer algo importante, queria saber o que fazer. Queria, mesmo, era ter coragem para dar meia volta e ir pra onde quer. Reflete e conclui que ninguém se daria ao trabalho de contar sua história. Não vale a pena, não tem nada demais. Aumenta um pouco a velocidade, quer chegar em casa.

E chega. Sem grandes problemas. Sexta à noite, fim de semana, só na segunda volta ao trabalho. Se joga na cama, não sente vontade de mais nada. Só de dormir. Vai conseguir, em algumas horas. E talvez estivesse certo, talvez sua história não seja lá tão interessante a ponto de ser contada.

Tyler Bazz

14 comentários:

Marcello disse...

Acabou de rolar uma identificação aqui... \o/

Barbarella disse...

esse motorista sou eu, né?

Nadia disse...

é a vida né? insignificante, nada excitante e desinteressante.

xD

Jullia A. disse...

O problema não é ser insignificante pros outros, e sim ser insignificante pra gente.

Varotto disse...

O clímax do anti-clímax.

Marina disse...

Não há história que não valha a pena. Só depende de quem conta.

Bruno disse...

"... qualquer um pode ser um sucesso, mas é preciso muito colhão para ser um fracasso."

Bel Lucyk disse...

Li o seu texto com a música Riders on the storm (the doors) ecoando na minha cabeça.
O efeito ficou show!

Ana Paula Muraro disse...

Triste vida moderna...

Dalleck disse...

A vida dele é mais agitada do que a minha. Pelo menos ele tem um carro =P

Leandro disse...

que nada... apesar do tédio, a "beleza da vida" esta' na forma como olhamos as coisas do nosso dia a dia :-)

Gabriel Leite disse...

Eu, particularmente, adoro coisas desinteressantes. Quer dizer, banais. Porque, pra mim, elas se tornam interessantíssimas!

Fernando R. Silva disse...

Ótima descrição de rotina desinteressante. E o melhor do paradoxo: aposto que todos ficamos interessados em saber por que ele leva a vida assim, por que é tudo tão desinteressante.

O principal: ele acordou pra fazer o quê no sábado, já que é fim de semana e ele não teria a desinteressante rotina a seguir?

Deisinha Rocha disse...

li os comentários da pessoas acima e só consegui pensar "é mesmo!"...

mas ao ler o texto, fiquei foi pensando em como somos apegados ao que temos de concreto... e me perguntei - e se le deixasse tudo pra trás, desse a meia volta tão desejada e... o que aconteceria... seria interessante - ao menos pra ele, por que ow ele taria mto f***** ou... sei lá!

mas achei esse post mto legal!