sábado, 15 de agosto de 2009

No More Patience At All

“Eu tou cansado de vocês!”, berrava um cara no balcão da padaria. O cabelo desarrumado, a cara cansada, as olheiras fortes sob os olhos vidrados denunciavam que aquela manhã, para ele, não era o início de um dia, mas sim o fim de uma longa noite. “Todos sempre me olhando torto! Seu bando de... judgementals!" – Sim, enquanto umas dez pessoas trabalhavam, e mais de vinte tomavam seus cafés da manhã, Alex – é, eu o conheço – tinha um surto nervoso bilíngue.

Conhecendo-o, sinto certa obrigação de explicar a vocês alguns dos motivos que causaram tal ataque. Não por vocês, é claro, que se divertiriam muito mais só assistindo a cena, sem ouvir os dramas da vida do cara, you little bastards. Mas sim pelo Alex, já que não é justo deixar um trabalhador honesto, cidadão pagador de impostos, ter toda sua imagem manchada por um momento de fraqueza, ou em bom português, ficar com fama de louco.

Para começar do início e chegar rápido ao que me interessa: Alex não foi uma criança muito agitada e teve uma adolescência normal, com todas as depressões, crises e bebedeiras de uma adolescência normal. Passou ileso, ou pelo menos sem grandes abalos, pelos quatro anos da faculdade de jornalismo e, quando se formou, iniciou o que todos, inclusive ele, tinham certeza que seria uma carreira de sucesso. Começou por baixo, trabalhando em meios pequenos, com estágios em jornais locais do interior. Então se mudou para São Paulo, já alcançando algumas melhorias na vida profissional, e aos 25 anos foi contratado por um dos maiores grupos midiáticos do país. Foi quando sua ruína começou.

“Eu trabalho! Trabalho muito!”

“Porra, Alex! Eu tô tentando conta a história aqui. Posso?”

“Eles não sabem é de nada!”

“Mas eu sei, cacete! Eu posso explicar isso tudo, até seu bafo de conhaque eu explico, mas você tem que calar a boca!"

É, o Alex bebeu um pouco demais, mas não tirem conclusões precipitadas, ok? Enfim, ele foi contratado. Depois de um tempo se tornou o responsável por alimentar a seção de últimas notícias do site do principal jornal do grupo. Durante a madrugada. Tinha que ficar a noite toda ligado nos sites das agências de notícias espalhadas pelo mundo, escolhendo o que iria para o site, traduzindo o que vinha em inglês - hence o bilinguísmo -, escrevendo o que julgasse necessário... Tinha poder para decidir e raramente precisava pedir qualquer tipo de autorização. Passava boa parte do tempo sozinho na redação, e quando aparecia alguém, não tinha tempo pra conversa. A melhor e mais óbvia companhia se fez cada vez mais presente. Cafeína.

Alex passou a tomar enormes quantidades de café todas as noites. Começou com um copo de vez em quando, depois outros mais. Perdia a conta de quantas vezes ia até a máquina de café da redação e voltava. Percebeu que andava gastando copos descartáveis demais e, aliando isso ao fato de os copos serem pequenos, comprou uma caneca grande, que não diminuiu as viagens até a cafeteira, mas aumentou a quantidade de bebida consumida. Toda manhã Alex lavava a caneca e guardava-a em sua gaveta. Começou a levar para o trabalho diferentes tipos de café, em pouco tempo conhecia todas as marcas disponíveis no supermercado. Bebia porque não conseguia não beber, mas também porque gostava.

Com tanta cafeína no sangue, era óbvio que Alex não conseguiria dormir logo que chegasse em casa todas as manhãs. No início isso não foi um problema, é verdade, porque Alex tinha uma namorada que não saía para trabalhar antes das 9, e ele chegava sempre antes das 8, então quase diariamente ele podia se cansar o suficiente para dormir tranquilamente até o meio da tarde. A mulher era quase insaciável e ele, é claro, nunca chegou nem perto de achar isso ruim. Infelizmente, para o Alex, numa raríssima noite de folga no trabalho ele resolveu fazer uma surpresa para a moça em seu apartamento. Saiu normalmente para o que seria o trabalho, comprou flores, fez uso da chave que tinha do apartamento dela, entrou em silêncio e encontrou-a, digamos, com a boca mais ocupada do que ele gostaria.

"Aquela vaca! Puta!"

"É, todo mundo sacou."

"Nunca quis me chupar! E tava lá, se lambuzando toda!"

"Ok, cara. Sem detalhes. Já passou, não passou?"

"Eu gostava dela, cara!"

"É, é, mas ela gostava de chupar os paus alheios, aceite."

"Porra. Não precisa falar assim comigo também, né. O que eu te fiz?"

"Ok, ok, desculpa. Mas não chora. Isso. Posso continuar a história? Prometo que não falo mais dela..."

"Aquela vaca! Vai, vai... continua."

O incidente acima mencionado ferrou com a vida de Alex por um tempo, mas as coisas foram se acertando. A grande herança de tudo aquilo foi que agora ele não tinha mais como gastar a energia proporcionada por todo o café ingerido, o que começou a atrapalhar, muito, sua vida profissional. Alex chegava em casa por volta das 7:30 da manhã, deitava, e não dormia. Ouvia o rádio, assistia tv, às vezes chegava ao cúmulo de descer até a banca e comprar um jornal, cheio de notícias que para ele já eram velhas. O sono só chegava após o meio-dia, e quando acordava Alex ou tinha dormido de menos, o que piorava muito sua performance no trabalho, ou dormido demais, o que o deixava atrasado e o fazia levar fumo do chefe.

Numa cinza manhã de sol, Alex encontrou o que lhe pareceu ser a solução do problema. Voltando para casa entrou em uma padaria, dessas que são padaria, lanchonete, bar, restaurante, pizzaria, ..., procurando algo para comer. Viu um senhor bebendo algo e resolveu que queria também. O whisky, horrível, desceu rasgando a garganta e contorcendo o rosto de Alex, que pediu uma segunda dose. Quando chegou em casa, mal conseguiu comer e já estava largado na cama em sono profundo. A bebida trazia-lhe o sono que antes o cansaço o fazia ter. Alex passou a, todas as manhãs, parar em algum lugar no caminho de volta pra casa e beber uma dose. Variava os lugares, conhecia uma ou outra pessoa, trocava dois bom dias e ia embora já sentindo as pálpebras pesadas.

O que Alex não imaginou que teria que aguentar foi a forma como as pessoas passaram a encará-lo. Sejamos sinceros, no entanto, que ele não imaginou porque não quis, ou porque não teve tempo, já que era óbvio. A cada manhã aumentavam os olhares que o desaprovavam, acusavam, culpavam. Ninguém sabia o que acontecia, o que fazia aquele jovem de barba rala estar ali, bebendo àquela hora da manhã, ninguém. Mas todo mundo julgava, e já que todo mundo é correto e cristão, Alex era um beberrão do diabo.

"Tudo hipóquitra!"

"Quê?"

"É! Isso mesmo..."

"Hipócrita, talvez?"

"É!”

“É, eu sei, todo mundo sabe."

"Todo mundo é o caralho!"

"Hum, é, ok. Todo mundo que tem um mínimo de noção."

"Ninguém tem porra nenhuma! Ah lá! Fica todo mundo olhando! Ninguém sabe é de nada!"

E certa manhã ele não aguentou. Perdeu a paciência e resolveu botar a boca no mundo.


Tyler Bazz

9 comentários:

MaxReinert disse...

huahauha.,... pois.. tem mais é que xingar mesmo... bando de hipóquitra!!!!

MaxReinert disse...

PS: A narrativa vai bem pra caralho... mas achei o final um pouco apressado!

Marina disse...

Sabe de que é a culpa disso tudo? Do trabalho. #euamocafe

Larissa Bohnenberger disse...

Rsssssss!
Pobre Alex! Uma vítima dos hipóquitras do mundo!
Bjs!

Jullia A. disse...

Já falei que hipocrisia mata? então.. Ou mata ou julga.

Gabriel Leite disse...

A narrativa ficou boa mesmo. Narrador discutindo com o personagem enquanto conta a história, sempre dá certo.

Dragus disse...

E no final ambos foram tomar uma cerveja pra relaxar.

Tyler Bazz disse...

um dia eu volto a escrever.

Luu disse...

Me familiarizo com Alex.