terça-feira, 28 de julho de 2009

As Árvores-Gente da Guerra-Fria

Em meados dos anos 50, uma década que sobrevivia ao século 20 sem uma grande guerra, ou uma grande depressão, o mundo vivia um de seus momentos mais brilhantes, e não só pela extrema quantidade de brilhantina encontrada nos topetes dos jovens da época. Impulsionadas pela prosperidade econômica, principalmente a norte-americana, indústria, cultura, ciência e tecnologia alçavam voos cada vez mais altos. Ao som de Elvis Presley o mundo se preparava, sem saber, para os Beatles e, de alguma forma já sabendo, para o Vietnã.

Enquanto a ciência se esforçava na criação de armas que pudessem não só destruir, mas também assustar inimigos de guerra, ocorreram algumas descobertas que de fato ajudaram a população mundial, como o transplante de órgãos, ou vacinas contra doenças como a poliomelite. Um cientista canadense, radicado nos Estados Unidos, criou por acaso, ao fazer alguns testes biológicos, uma substância que tinha o poder de dar vida humana a vegetais.

A descoberta foi mantida em segredo pelo governo durante alguns anos. Mas após milhares de testes decidiu-se que o invento não causaria dano à sociedade e a notícia foi recebida com alvoroço em todo o país, principalmente pelas crianças. Em pouco tempo o produto que dava vida a árvores era comercializado em larga escala, com um único e incansavelmente repetido aviso: quando a árvore morresse, deveria ser queimada em um prazo máximo de três dias. Não havia indicação especial sobre o que deveria ser feito das cinzas das plantas.

Praticamente todas as famílias compraram o produto. No quintal dos fundos de cada casa nos Estados Unidos podia-se achar uma árvore "gente". Os vegetais não ganhavam habilidades como andar ou se locomover, nem precisavam comer nada além da tradicional alimentação feita pelas raízes, mas se tornavam capazes de pensar, falar, e desenvolver sentimentos humanos. Aos poucos ia crescendo uma geração de crianças que tinham uma árvore como melhor amiga. Árvores com quem falavam até tarde, sob as estrelas; árvores que se tornavam membros da família, sempre fixos no quintal, guardando a casa. Árvores que morriam, mais cedo que as comuns, e deixavam uma cicatriz de saudade no rosto de cada pessoa. A indicação de que as árvores deviam ser queimadas em até três dias após a morte era seguida à risca e nenhum incidente havia sido registrado com relação às árvores. Até certo dia.

Em uma cidade da Nova Inglaterra, uma árvore morreu enquanto a família viajava para visitar parentes no sul. Não seria um problema se a casa estivesse vazia, pois sem dúvida algum vizinho estaria encarregado de avisar a família em qualquer emergência ou coisa do tipo, mas um dos filhos do casal, de dezenove anos, havia se recusado a viajar em ficou em casa, para se divertir com os amigos da cidade. Uma mistura de revolta, falta de preocupação, e tentativas frustradas todas as noites de chegar além do soutien de sua namorada fizeram com que o garoto se esquecesse, talvez de propósito, da recomendação sobre o fim que a árvore devia levar. Três dias se passaram e o tronco sem vida, os galhos secos e a folhas cada vez mais escassas continuavam em pé no quintal.

Foi durante a noite que a transformação aconteceu. De dentro de casa, o garoto ouviu o som dos galhos se mexendo e, assustado, lembrou-se que não havia feito nada com a árvore morta. Quando chegou ao fundo do terreno seu sangue congelou com o que viu: as raízes da árvore estavam fora da terra e funcionavam como pernas, os galhos se estendiam como braços à procura de algo e, no tronco, os dois olhos, antes amáveis, tinham um aspecto de ira e fome. Os incessantes avisos para que as árvores fossem queimadas não eram à toa, afinal. Os olhos do garoto, arregalados, viam algo que nunca imaginara ver: uma árvore morta-viva, uma árvore zumbi.

A árvore foi até a entrada da casa, arrancou um pilar de madeira e o levou com fúria à boca. O garoto, apavorado, percebeu que aquilo fez com que a árvore crescesse alguns centímetros, e tentou impedir o monstro de destruir sua casa, mas um dos galhos o jogou para longe, fazendo-o sangrar. Quase desacordado, no chão, ele pôde ver a árvore tirar mais dois pedaços da casa, enquanto ouvia a árvore do terreno ao lado gritar por socorro.

Alguns vizinhos acordaram com o barulho e já se esforçavam para conter a árvore-zumbi, mesmo sem saber como. O monstro se dirigiu ao quintal da casa ao lado e por alguns minutos manteve suas raízes em contato com a árvore do vizinho, que continuava gritando por ajuda. Logo a árvore também tinha ira no olhar, e erguia-se sobre as raízes à procura de madeira. Um homem deu tiros com sua espingarda, em vão, outro tentava acertá-las com um machado, mas era mantido à distância pelos fortes galhos.

As árvores cresciam de tamanho conforme comiam pedaços das casas de madeira. E a cada instante o número de zumbis aumentava. Alguém acendeu uma tocha, mas as árvores eram fortes demais e não seriam queimadas com o escasso fogo e a pouca força da pequena cidade. Em pouco tempo a cidade estava destruída, e enquanto os moradores tentavam transmitir sinais de socorro, alguns por telefone, outros fugindo com seus carros, as árvores-zumbi tomavam a estrada, aumentando em número e tamanho, levando terror à próxima cidade.


Tyler Bazz

15 comentários:

Jullia A. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jullia A. disse...

não só pela extrema quantidade de brilhantina encontrada nos topetes dos jovens da época.- gostei.

Bárbara Ribeiro disse...

Até o meio do conto eu esqueci que "o blog é quase sempre ficção". Tava acreditando de verdade até a hora que elas deveriam ser queimadas até 3 dias após a morte. rs!
Muito bom.

George Marques disse...

Eu também esqueci que é ficção. Quando eu vi a parte do "poder de dar vida humana a vegetais", pensei "Hã?", daí percebi.
Isso me lembra do Senhor dos Anéis xD

Nadia disse...

assim, eu tenho medo da sua criatividade às vezes.
mas dessa vez foi sensacional.
o trocadilho que eu tirei de a "guerra-fria" foi digno de nadia.

ai deus.
xDD

Nadia disse...

ps: a próxima árvore que morrer eu queimo antes do 3º dia, só por garantia.

P! disse...

MALDITOS PORCOS CAPITALISTAS COMERCIALIZADORES DE ÁRVORES-ZUMBIS!
huhauhauhauhuahuhua
Bom, eu também tava estranhando até a metade do post! Até olhei o layout pra ver se eu não tinha entrado por engano em algum blog histórico.

Maringa disse...

Ja tive uma viagem assim.

Juro.

Marina disse...

Totalmente esqueci que era ficção até me deparar com o "uma substância que tinha o poder de dar vida humana a vegetais". Pelo menos, não demorou tanto para cair a ficha.

Ainda preciso saber o que você consome para viajar desse jeito. Sério, é alguma substância ilegal?

Varotto disse...

Inspiradíssimo!

Varotto disse...

Pensando bem, essa história serviria fácil como argumento para um episódio daquela série de contos fantásticos, produzida pelo Spielberg na década de 80, Amazing Stories.

Sir Lucas disse...

Uau. Bom demais.

O clima noticiario só deixou o texto mais legal.

Parece até enredo de filme b, como os tomates assassinos. :D

Mistérios, Magias ou Milagres. disse...

Seu blog é fantastico adorei. bjs

Fernando R. Silva disse...

Certeza que essas árvores zumbis estiveram em Matrix ou em Resident Evil. :)

Fernando R. Silva disse...

Ah, terá continuação, certo?