sábado, 30 de maio de 2009

Genética

A cidade começava a acordar na quarta-feira, o sol um pouco mais fraco que no dia anterior e uma brisa discreta mexendo os galhos, quando as primeiras pessoas o notaram. Não foi outro o assunto durante a compra do pão; as crianças que iam para a escola olhavam fascinadas e quase esqueciam de andar, mas saiam correndo logo que lembravam dos avisos das mães, dizendo para não chegarem perto. Chegou-se à conclusão de que havia aparecido ali no intervalo de duas horas entre o boteco fechar e a padaria abrir, visto por ninguém. Afinal, a cidade se perguntava, por que tem um gigante na nossa praça?

Tinha um pouco mais de quatro metros de altura e um corpo enorme, forte, coberto por uma pele bastante queimada de sol. Sentado nos degraus do coreto, observava com olhos bem vivos e rosto neutro o movimento da cidade. As poucas portas de comércio se abrindo, os poucos carros passando, as pessoas indo trabalhar, todas olhando-o curiosas e meio assustadas. Disseram que devia ser o prefeito, mas ele se negou, com medo, então acabou indo o dono do mercadinho falar com o gigante.

“Bom dia”, disse, se aproximando. A resposta foi apenas um aceno de cabeça. “De onde o senhor é?”, continuou.

“Da capital”, a voz soava ainda mais forte do que o tamanho do homem sugeria. Grave, ecoante, arrepiava e fazia tremer os órgãos de quem ouvia pela primeira vez.

“E o senhor veio fazer o quê aqui? Está procurando alguém?”

“Só vim visitar”, tudo que o gigante dizia ganhava um tom ameaçador, como se a qualquer momento ele fosse se levantar e destruir a cidade.

O que se viu nos dias seguintes, no entanto, foi a boa e velha queda de preconceitos. O gigante mostrou-se amável, generoso, prestativo, e rapidamente se tornou parte da rotina da cidadezinha. Até dispensaram o carro de bombeiros que haviam pedido da cidade vizinha no primeiro dia. Ajudava no que podia, e em troca davam-lhe comida e boa conversa. Tirava frutas e gatos do alto das árvores, trocava as lâmpadas dos postes, pintava as poucas fachadas do comércio... passava o tempo livre sentado nos mesmos degraus do coreto, sob o sol, olhando o pouco movimento. Certo dia o padre da cidade levou-lhe uma bíblia; o gigante até tentou ler, mas suas mãos enormes acabaram rasgando aquelas páginas tão finas. Apesar de ter se desculpado várias vezes, o padre nunca mais voltou a falar com ele. Às vezes o gigante sumia por dois ou três dias. Voltava sempre com um aspecto exausto, os pés enormes sujos de terra, os grossos cabelos pretos endurecidos de suor. Apesar da aparência cansada, nunca cheirava mal.

Mas essa história precisa ir a algum lugar, e o gigante se apaixonou.

Foi pela moça mais bonita da cidade, que todos os dias atravessava a praça com seu sorriso e seus olhos verdes e aquelas sardas quase invisíveis que encantavam tanto o gigante. Ele olhava e suspirava toda vez que a via; seguia-a com os olhos o tempo todo, imaginava poemas para ela, e dedicava mentalmente todas as músicas bonitas que conhecia. Numa manhã de sol, apareceu em frente à casa da moça um galho de ipê totalmente florido – mesmo sem cartão, todos sabiam de quem era o presente. A cidade comentava. A moça foi pisando duro até o gigante, que com um olhar doce e esperançoso se declarou. Ela não reagiu bem; pelo contrário. Humilhou o gigante na frente de todos, disse-lhe que ele era louco por sonhar que ela pudesse um dia se relacionar com aquela... aberração!

O gigante saiu da cidade correndo, envergonhado. Toda a cidade – quase toda – reprovou a atitude da moça. Naquela noite choveu muito, e os zeladores da escola viram que o gigante se protegia sob a cobertura da quadra de esportes. A mulher do zelador levou para ele um bom prato de comida, e jurou depois que os olhos do gigante pareciam inchados de tanto chorar.

A manhã seguinte começou nublada e, na quadra de esportes, não havia nada além do prato vazio e uma pequena flor amarela; nem sinal do gigante. Os dias passavam e ele continuava desaparecido, até que chegou à cidade um cartão-postal de uma cidade nos Andes, com o gigante agradecendo a todos pela hospitalidade e explicando que precisou de uma mudança de ares.

Um mês depois, a moça se casou com o filho do vice-prefeito, e a vida da cidade seguiu por algum tempo sem grandes eventos, pacata como sempre havia sido. Quase não se falava no antigo hóspede. Só lembraram mesmo do gigante quando, oito meses após sua partida, a tal moça morreu. Foi durante o trabalho de parto, do qual nasceu um bebê de oitenta centímetros.


Tyler Bazz

18 comentários:

Jullia Aranha Amaral disse...

Que.. que.. dó? fofo?
não sei explicar. Gostei bastante.

Sam disse...

Bom, toda repulsa sem explicação tem consequências desse tipo...

beijos

Anônimo disse...

Foda, nem sei explicar o setimento que este texto me causou.

Nadia disse...

Um gigante apaixonado, um amor não correspondido, uma donzela ignorant e babaca, um filho ilegítimo... tão tyler bazz.

adoooro

Nadia disse...

Um gigante apaixonado, um amor não correspondido, uma donzela ignorant e babaca, um filho ilegítimo... tão tyler bazz.

adoooro

Nadia disse...

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Nadia disse...

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Um gigante apaixonado, um amor não correspondido, uma donzela ignorant e babaca, um filho ilegítimo... tão tyler bazz.

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Marina disse...

Filho ilegítimo. Será? Ou será só castigo?

Muito bom, Tyler!

Jullia Aranha Amaral disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dalleck disse...

Putz, eu não sei se estou chocado, se eu choro ou se dou risada...

aheuaheuhauehauhea

Esse post iluminou meu dia (nossa!)
rs

Anônimo disse...

Esse post iluminou meu dia (nossa!)[2]

Dragus disse...

Será?

Bonaldi disse...

AAHHHHHH muito bom! Você devia escrever mais sobre assuntos bizarros e fantásticos do tipo...

P! disse...

Duplicidade de sentido nesse final. Qual foi a sua primeira idéia? A ironia do filho nascer como o rejeitado ou a ionia de rejeitar e depois engravidar do rejeitado?

Mas como se trata de Tyler, a ironia não pode faltar, né?

Richers disse...

Ai! q vontade de ver eles transando! *_*

Anônimo disse...

Realmente, mandou muito bem!
Qm nunca se sentiu na pele dessa "criatura diferente" retratada no conto? Eu já.
Acredito na existência de um amor recíproco entre duas pessoas bem distintas; mas por causa de preconceitos impostos pela sociedade (homem não poder namorar uma mulher mais alta e tals/namoros interraciais serem "proibidos"), muitos casais acabam terminando um relacionamento, a fim de não sofrer "coerção" por parte da maioria.
Alguém poderia me dizer... qm disse q houve amor nesse conto? Houve sexo... Pois é, muitos deixam de se divertir, de serem felizes... por mera incomodidade de serem considerados fora das "normas". É normal um cara de 1,68 namorar uma moça de 1,75? Existe certo ou errado?
Essa minha leitura, foi feita às avessas e tá cheio de brechas... mas é legal a diversidade de interpretações possíveis nesse conto.

taiscarla disse...

concordo com o Bonaldi..
gnt, estou imaginando o parto xD

mto bom, Tyler Bazz