sábado, 28 de fevereiro de 2009

Auto-conhecimento.

E ali, no alto do prédio de vinte andares, enxugava as últimas lágrimas, que corriam não por um motivo único e forte, mas pelo conjunto da obra, o encadeamento de fatos infelizes e sonhos não realizados em que sua vida havia se transformado. Como as coisas chegaram aquele ponto? Não sabia, há muito tempo não sabia de mais nada.


Muita gente achava exagero, acusavam-no de viver uma ótima vida e só reclamar à toa. Ninguém sabe de nada, pensou, puxando como exemplo a conversa ao telefone de poucos minutos antes, quando a mãe ligou para, mais uma vez, questionar o que ele andava fazendo com a própria vida. Já parou de fumar?, ela perguntava como se fosse essa a solução para tudo. Você precisa é arrumar uma namorada, uma esposa, quem sabe assim toma jeito na vida. Mas com esse cheiro de cigarro fica difícil até alguém falar com você. Também já passou da hora de procurar um trabalho melhor, e depois mudar de apartamento, que moça nenhuma vai querer casar e morar nesse apartamento velho com um atendente de loja de ferramentas.


O maldito emprego, lembrou, olhando as estrelas que insistiam em aparecer por trás das nuvens. Trabalhava muito, ganhava pouco, e tinha que aturar o chefe, que pensava ser o rei do mundo, dono da verdade, sabe-tudo, mas nem mesmo era capaz de perceber os chifres que a esposa gostosa lhe colocava. Tinha vontade de bater nele até não aguentar mais, sentir o cheiro de sangue sair do rosto gordo do chefe, mas o azar era tanto que o homem era do tamanho de uma kombi. O filho da puta levaria uns três dias para tomar uma atitude quanto ao sumiço do empregado. Quando ligassem para saber o que se passava, já estaria podre.


Bebeu o último gole do último café, encarou o fundo da caneca e quando viu, já pensava nela. Ela, sempre tem que ter uma. Ela, a real razão de tudo aquilo, o maior de todos os problemas, a pior das dores. Lembrou de quando se conheceram, na escola, com onze ou dez anos de idade, e de como cresceram juntos e dividiram o primeiro beijo, e a primeira sessão de cinema, e a nervosa primeira vez na cama, e tudo. E lembrou como era boa a vida com ela, e como tudo teria saído bem melhor se as coisas acontecessem como ele queria, e não como ela decidiu. Ela fez dezoito anos numa sexta-feira, ainda lembrava, e no domingo, soluçando lágrimas que deviam ser falsas, comunicou que estava se mudando, que ia fazer aquela faculdade que ele nunca nem pensou em fazer, e que não queria ficar presa ao passado, que era ele. Então ela foi embora, e absolutamente mais nada deu certo nos três anos seguintes, levando a história para ali, no alto do prédio de vinte andares.


Queria ter escrito pelo menos uma carta pra ela, pensou, enquanto se levantava e jogava para o lado a caneca, que explodiu em cacos. Não escreveu porque sabia que, se escrevesse, desistiria, e não queria de jeito nenhum desistir, não podia desistir. Caminhou decidido até a beirada do telhado, olhou mais uma vez o céu, tentou não olhar para o chão, o próximo destino, mas não conseguiu e encarou com firmeza a calçada vazia. Fechou os olhos e pulou. Pulou e descobriu: podia voar.



Tyler Bazz
(recebi uns três ou quatro selos desde que a vida offline começou, agradeço imenso e prometo que, quando voltar de vez, posto os selos com os respectivos remetentes e destinatários ;P)

27 comentários:

Marcio Sarge disse...

Isso me lembrou Heros...


Porra! Vamos precisar de uma campnha do tipo "Volta Tyler'"?

Volta logo

' bell disse...

Uma coisa que percebi depois que decidi postar meus textos num blog (porque existir eles sempre existiram), é que é sempre sobre a gente... e acho que por isso que às vezes encontramos pessoas que escrevem coisas que nos identificamos de cara, e lembramos mil situações... porque querendo ou não, temos nossas vidas clichês, espelhos, ams eu até gosto assim...

gosto muito do jeito que escreve, e que percebe as coisas à sua volta... e sobre as várias coisas que lembrei, é melhor deixar pra lá, eu escondo num texto por aí. Depois de um tempo elas ficam mais leves, e ganham um quê de belo, não é?...

vê se não some de vez, faz falta por aqui...

:)

Sam disse...

Ele acabou se conhecendo demais. Talvez por isso houve essa necessidade de voar...

Eu estou completamente dentro da campanha do Sarge!

beijos

Gabi disse...

Volta Tyler!

\o

Marina disse...

Como assim, café em vez de whisky? É pra dizer que ele estava com a mente clara quando pulou?

Aderindo a campanha.

Nadia disse...

e assim acaba a vida de muita gente... uma amor não correspondido, um cigarro e uma chícara de café.
será que um dia me jogo de um prédio de 20 andares?
não, não... eu faço faculdade, não trabalho em uma loja de ferramentas e nunca tive alguém tão importante assim, que dividisse tantas coisas.
posso ficar sussegada.

(adoro quando eu enfio a minha vida nos seus textos... é ridículamente adolescente, mas faz um bem!)

Larissa Bohnenberger disse...

Aleluia, senhor Tyler!
Já não era sem tempo de dar as caras novamente!!!!
Bjs!

Dalleck disse...

Volta Tyler!

Um texto que ninguém morre? Acho que ainda não é o Tyler escrevendo. Brincadeira =P

Final perfeito! (Lembrou-me Heroes também).

Anônimo disse...

oO

Gabriel Leite disse...

Ah, mas o voar aí do último parágrafo tem conotação subjetiva, não é?! Não quer dizer que ele realmente voou, com suas asas e tudo... Mas que ele se libertou.

A meu ver.

Fernando Ramos disse...

Concordo com o Gabriel Leite. Depois que pulou, se libertou de uma vez.

Tyler, podemos considerar isto uma eutanásia, já que pelas entrelinhas do texto, ele vivia doente?

Aline disse...

Volta logo!;) Adoro seus contos, os finais inesperados. Até esse que eu achei que sabia o final, não era.

Gilgomex™ disse...

rapaz... e esse foi um pontasso aumentado...

muito bom...

e esse final Grant Morrison, tb ficou "bem loko"...

notei que vc ficou um mes inteiro sem postar... bateu meu recorde... rs.

taiscarla disse...

não poderia haver melhor hora para se descobrir tal coisa , não?

amei, ok?

theo disse...

Hmm, senhor Tyler, nunca o tinha visto desta maneira: sensivel.

Blog do Walther disse...

uma achado...uma quimera...é a definição pro blog....
tenho que aprender muito...baubauaa
|Adoro...ja vou seguir...

parabens pela originalidade

banana disse...

cadê você, meu ?

Anônimo disse...

vooooooooolta!

dari

Bonaldi disse...

"Sobre café e cigarros". E planos de vôo. Soa familiar.....
Muito bom.

DIZDIZENDO disse...

Oi, nao li pq to com muita pressa, mas amanhã, nao amanhã nao, segunda leio e comento.
Tem um selo pra vc no dizdizendo.
bj.

Bruno disse...

Agora que eu voltei a ler e escrever blogs, descobri que você anda offline. ¬¬

MARCOS disse...

li e gostei! agora, pergunto: ele voou até onde?

Fernando Ramos disse...

O MST - Movimento Sem Tyler - protesta: queremos o Tyler! Queremos o Tyler! Queremos o Tyler! Queremos o Tyler! Cadê tu, meu filho?

Abraços!

Jullia Aranha Amaral disse...

haan oi !
Meu nome é jullia e eu sou filha da sua professora de ingles, solange, e ela me falou pra visitar teu blog !
gostei muito :) mesmo voce matando quase todo mundo no final!
cliquei pra virar seguidora. Beijos
ps: voce seria bem vindo no carnavalize!
ps2: minha mae disse que voce tem problema.

Fada Lella disse...

gostei muito do blog! beijos

Bruno Vieira disse...

"Bebeu o último gole do último café" Gostei disso.

Bacana seu blog, acabei de chegar ainda vou ler mais.

Visite ONÃOENFORCADO - www.onaoenforcado.zip.net

Abraços!

Cissa disse...

será que o vôo leva mesmo à libertação?

sei lá...

mas eu gostei assim mesmo. =)