sábado, 3 de janeiro de 2009

O cliente quase perde a razão.

Entrei no primeiro bar que encontrei no centro da cidade, entre uma farmácia e uma loja de artigos para cozinha, o suor escorrendo pelos cabelos e a camiseta já úmida, devido ao sol do meio-dia. Era um lugar apertado, não tinha nem cinco metros de largura, mas alongava-se bastante para o fundo; à esquerda, um balcão em 'L' que lá no fim se fechava, com o caixa; à direita, uma fila de mesas encostadas à parede. Decidi sentar no balcão, perto da porta, com as costas para a rua.

Sentei-me num banquinho manco, apoiei o braço esquerdo no balcão, e já tirava a mochila das costas para também colocá-la ali quando o reflexo da luz me fez mudar de idéia. O lugar não via um pano com Veja havia já uns oito anos. O braço quase não desgrudou do balcão, mas com algum esforço consegui puxá-lo. Olhei; ao lado dos porta-guardanapos cor de prata, imundos, obviamente vazios ou quase, havia um pote fechado, cheio daquela coisa que um dia foi água e que hoje provavelmente corrói papel, dentro, salsichas, diziam, mas juro ter visto algo se movendo; também em cima do balcão um arame cheio de pacotes de torresmo, à venda, e um prato, provavelmente a coisa mais limpa do lugar, cheio de guimbas e palitos de fósforos queimados.

A pia estava forrada de pratos, talheres, e copos sujos, sabe-se lá a quantos dias. A moça que ali trabalhava, vestindo avental, olhava a pia tentando se convencer a começar a limpeza; estava de costas para mim. Vi sua bunda e na hora me lembrei daquele filme, nacional (se você estiver no Brasil), eu podia ficar horas olhando aquela bunda, eu me casaria com aquela bunda. Eu não queria pedir, não ligava para seus cabelos negros ou para seu jeans velho, eu só queria olhar a bunda; então, ela se virou e veio me atender. "Vai querer alguma coisa?" - Seu rosto era desagradrável; não exatamente feio, mas como se alguma coisa estivesse fora do lugar, sem que fosse possível saber o quê.

"Uma Coca", respondi, desviando o olhar de sua cara e esperando que ela se virasse para pegar a Coca, e mostrar a bunda. "Não tem Coca", respondeu, eu bufei. "Que é que tem, então?"

"Tem café, suco, cerveja conhaque pinga cachaça leite água e licor."

"Refrigerante, não tem nenhum?"

"Não senhor. Só tem café, suco, leite e bebida. Ah, e água."

Respirei fundo, estranhando o fato de as paredes estarem cheias de banners de refrigerantes, anunciando promoções. Baixei os olhos, fixei-os em lugar nenhum entre a cintura da moça e a pilha de copos sujos. O calor entrava pela porta às minhas costas, enquanto o ventilador no teto do bar empurrava rajadas de vento quente contra meu rosto. "Vai querer o quê?", ela perguntou e eu fiquei quieto. Percebi que a irritei um pouco, perguntou então outra vez, mais alto. "Ainda não decidi", respondi em voz baixa; foi quando um outro homem entroue ela foi atendê-lo. Fiquei olhando a bunda trabalhar. Ele pediu, ela abaixou - maravilha! - e serviu, geladíssima, uma garrafa de Coca.

Precisei me segurar para não voar por cima do balcão e socar a cara da menina, e logo depois pegar em sua bunda. Respirei fundo e só protestei, em voz alta o suficiente para que o bar todo ouvisse: "Você falou que não tinha Coca nenhuma!" - Ela se aproximou, sorrindo, o que tornava seu rosto ainda mais desagradável, "desculpa, é que eu não posso servir refrigerante pro senhor." Não sei o que me irritava mais, aquela palhaçada com a Coca ou ela ficar chamando alguém mais novo que ela de senhor.

"E por que não? Porra!"

"É que... é... eu não posso servir refrigerante pra pessoa de óculos. Só café, suco, bebida e água. Ah, e leite."

"Quer dizer que se eu tivesse entrado sem óculos eu tomava a Coca?"

"É", ela sorriu outra vez.

Tirei meus óculos. "Pronto, agora não tem mais óculos. Eu quero uma Coca."

"Não vai dar não", seu rosto era de alguém que queria me dar a Coca, mas que por algum motivo insano e obscuro não podia, "porque eu já sei que o senhor usa óculos."

Saí do bar puto da vida, acho até que derrubei o tal banco. Achei outro bar e tomei minha Coca, depois, passando por uma ótica, quase entrei e comprei lentes de contato. Mas não, não e não.


Tyler Bazz

18 comentários:

Nadia disse...

"eu podia ficar horas olhando aquela bunda, eu me casaria com aquela bunda."

Cheiro do ralo ou algo do tipo é o nome do filme né?
Gostei dele.

E obrigada pelo aviso, nunca mais entro de óculos em bar algum.
Isso se algum dia eu tiver que usar óculos (óculos escuros não contam né?)

xD

paulonando disse...

Muito bom! Gostei!

' bell disse...

hein? não sei se foi meu dia (o pior do ano até agora, diga-se de passagem), meu sono (a gata infernal do vizinho , Mimi, vai morrer amanhã, garanto)... vai ver são os óculos né... mas não entendi... se entender promete que me explica? juro que amanhã vou estar melhor e tentar dar meu parecer sobre o caso...

só consegui prestar atenção na palavra café, e café... tah, admito q li bunda tbm hsauhsuahs

vou ficar com o café...
;)

Laila disse...

Viu só? É por isso que uso lentes! (será que deveria mencionar isso em público?) Óculos causam um preconceito abismante.

Gabriel Leite disse...

Tayler, às cinco horas da tarde: "...mas vou precisar de um motivo bem inexplicável e ao mesmo tempo, bem complexo. E é claro que no final ninguém vai saber o porquê das coisas".

Lucas disse...

Meu óculos so serve pra leitura, mas saio com ele quando quero parecer mais velho, ou ter a idade que tenho, e até hoje tem dado certo. Mas negar Coca pra mim seja lá por qual motivo, é imperdoavel. É por isso que vou comprar minhas próprias máquinas de refrigerante...

mariana disse...

essa coca que eles vendiam devia ser muito da esquisita. o_o

Gabriel Leite disse...

Acabei de ouvir alguma coisa da Amy MacDonald no YouTube. Gostei bastante.

Valeu

' bell disse...

eu acho que a resposta é o que o Gabriel falou mesmo...

Varotto disse...

Ainda bem que é só um conto mas, por pouco, poderia ser uma história real de Mr. Gordon.;o)

Varotto disse...

Tive uma epifania!

(tudo bem, não é contagioso)

Agora tudo ficou claro.

Lembram quando o Rob falou que ele é, na verdade, cobaia daqueles demoniozinhos para todas as coisas infernais que vão aporrinhar os mortais comuns em seguida?

O chefe do laboratório de testes é o Tyler.

Gordon, não estranhe se algo semelhante a essa história acontecer com você em breve...

Tyler Bazz disse...

Putaquepariu Varotto! Não espalha!!!!!

Eu me aproximei dele, consegui manter conversas com a coba.. er, com ele, sabendo do que ele gosta e tudo mais.. não poe tudo a perder!!!

:D

Dalleck disse...

hauahuhaa, realmente a teoria do Varotto faz sentido...

Varotto disse...

"Não espalha!!!!!"

Pô... Foi mal aí, hein...

Marina disse...

A parte da bunda foi realmente hilária!

Vai que o dono do bar tem alguma crença tipo aquela que diz não pode tomar leite com manga... Anyway, ainda bem que não uso óculos.

Abraço!

Perci Carvalho disse...

anh?!

Miriã Soares disse...

Surrealista!!! Gostei...mas lembrei: "eu não nasci de óculos, eu não era assim, não..."

Gilgomex™ disse...

bundas e cocas sempre rendem...
juntas então...