terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Crônica de uma Morte Irritante

Era sexta-feira e Rafael entrou no bar com uma boa vontade que nem ele esperava. Há tempos não tinha uma semana tão ruim: o namoro recém-terminado ainda causava danos (principalmente porque a Lilian insistia em procurá-lo); o trabalho continuava uma merda, pagando pouco e estressando muito; em casa as coisas também não agradavam, como sempre. Relutou um pouco quando a Silvinha chamou, mas cedeu, afinal ele precisava se divertir um pouco, e gostava tanto dela que não conseguiria dizer não dessa vez.

Ela já estava lá, sempre numa mesa cheia de gente. Rafael reconheceu duas outras meninas, tinha ainda mais uma que ele não conhecia, e dois ou três meninos que ele não se lembrava de ter visto antes. Se juntou ao pessoal da mesa e estava até se divertindo, menos quando um dos caras resolvia falar com ele.

Era um puta mala, o menino. Encanou com o Rafael e não saía de perto; só falava de coisa chata, alto demais, rindo demais. Tentando não ver a noite ir pelo ralo, Rafael tentava se afastar, conversar com outra pessoa, e começou a ser o mais seco que podia com o chato. Não adiantou muita coisa, ele não se tocava. Quando o menino estragou o jogo de sinuca e furou o olho de um amigo, Rafael percebeu que não era só ele quem não suportava mais.

Mesmo assim, não queria briga e não tomou atitude nenhuma. A cerveja foi ficando menos gelada, a música foi parando de agradar, nem mesmo os sorrisos da Silvinha pareciam mais valer a pena. Rafael foi ficando cada vez mais quieto, cada vez mais ranzinza.

"Eu vou indo já", disse à Silvinha após uma meia-hora de paciência esgotada. Ela tentou persuadi-lo a ficar, mas ele acabou vencendo. "Ah, então tá, querido.. tchau", abraçou-o e, durante o abraço, ouviram a voz do mala. "Tá indo já cara? Onde você mora?"; Rafael respondeu; "É perto de casa! Me dá uma carona?"; Rafael respirou fundo, Silvinha olhava-o, seu rosto se desculpava. Saíram juntos do bar, Rafael e o mala.

No caminho, pouca coisa mudou, parecia uma cena única, de poucos segundos, repetida várias vezes. O mala fazia algum comentário idiota e ria histericamente em seguida, Rafael dava uma resposta curta, grossa e sem graça, ou apenas grunhia qualquer coisa, ou não falava nada. No entanto, certo de que o pesadelo se aproximava do fim, seus músculos começavam a relaxar, e ele já se sentia até mesmo capaz de sorrir. Foi quando o pneu do carro furou.

"Inferno!", gritava Rafael enquanto descia para ver o estrago, "inferno! inferno! inferno!" O mala achou graça, disse para o 'amigo' ficar calmo, blablablá, Rafael nem ouviu. Foi até o porta-malas, puxou o estepe com raiva, decidiu não usar o triângulo luminoso. Não precisava, a rua era deserta. Sentou-se próximo ao pneu furado e esbravejou mais uma vez. "Pega a chave-de-roda ali atrás pra mim."

O mala pegou a ferramenta, pensando que Rafael podia ter pelo menos dito "por favor", andou devagar até o dono do carro, que olhava para o pneu, murchos. "Cara, você é muito chato", disse, e a chave-de-roda desceu algumas vezes na cabeça e nas costas de Rafael.

Tyler Bazz

17 comentários:

Dalleck disse...

Coitado... do pneu =)

Nadia disse...

Coitado do Rafael.
Ele já tava triste pela ex, o cara acaba com a noite dele e...
Ahhh. =/

MaxReinert disse...

hauhauhahaua... que maldade!!! Se eu fosse o Rafael eu é que tinha matado o cara!!!!

Varotto disse...

"Se eu fosse o Rafael eu é que tinha matado o cara!!!!"

Que é o que todos estavam achando que ia acontecer.

Bela reviravolta.

Aline disse...

Huiouahua!Tava apostando no Rafael, poxa...

Larissa Bohnenberger disse...

Nossa!
Rafael se deu mal...

Nanda Assis disse...

legal a cronica, tenho um filho que se chama rafael rs.

bjosss...

Stephanie disse...

depois dessa história, fiquei com muito medo de dar carona pra gente chata. E olha que eu nem tenho carteira de motorista.

beijo!

-any valette disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
-any valette disse...

merda. eu estava prestes a fazer um comentário similar ao do rafael.

[não pra você, não foi isso que eu quis dizer]

Cissa disse...

"Se eu fosse o Rafael eu é que tinha matado o cara!!!!" [3]

hahahahaha...
8-)

Marina disse...

Ah, já dei muita carona pra gente chata. Mas acho que nunca morri. Será?

Gabriel Leite disse...

Não é só dar carona não...

Os chatos são os mais perigosos.

Bruno disse...

Rafael fez por merecer, vai.

jordão disse...

Nossa, por isso seus textos sao os melhores, sempre uma surpresa...
e, adoro contos com mortes tb, nao sei tb...

Fernando Ramos disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Muito bom, muito bom!

Ótima a frase "...parecia uma cena única, de poucos segundos, repetida várias vezes."

É incrível como todo chato não se toca. O erro do Rafael foi não ter metido a chave de roda na cara do infeliz e acabdo com a tortura o quanto antes. Todo chato é meio doido.

JAIRCLOPES disse...

Belíssimo conto, com moral e tudo! Não fosse um conto seria uma fábula cuja moral poderia ser: "Chato é quem julga os outros chatos". Abraços e parabéns pelos textos, ótimos.