sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Saindo de Cartaz

Subiu apressado as escadas rolantes que levam ao cinema, não queria perder os primeiros minutos de filme, os trailers já deviam ter começado e a pipoca ainda nem estava comprada. Andava com passos largos até a bilheteria, ao mesmo tempo tirava moedas dos bolsos e contava, pegou o ingresso, pagou, e descobriu que estava, na verdade, meia hora adiantado. Olhou em volta, constrangido e aliviado, já que ninguém sabia de seu deslize, viu uma garota chegando pelas mesmas escadas que ele, ela era linda, ele desceu para o andar de baixo do shopping.

Passou pelos corredores correndo os olhos nas vitrines e confirmando que nada ali lhe chamava a atenção. Entrou numa livraria mas saiu trinta segundos depois, brigando contra a própria vontade e repetindo para si mesmo que não podia gastar aquele dinheiro, que ele faria falta depois. Passou pelo supermercado, comprou chicletes, subiu as escadas rolantes de volta para o cinema. Não viu a menina linda; olhou o ingresso para conferir o horário, faltavam vinte minutos, comprou um saco de pipoca enorme e um copo de Coca que não era menor, sentou-se em um dos bancos com a pipoca entre as pernas, comendo uma vez ou outra, tirou um livro da mochila e começou a ler, algo em espanhol.

"Posso sentar aqui?", uma voz doce perguntou a seu lado. Ele olhou, não, não era a menina linda. Era outra, linda também. Aliás, aquela primeira já não lhe parecia tão bonita, essa sim era.

"Uhum", ele respondeu, voltando os olhos para o livro. Sabia que não adiantava. Puxar conversa? Ela provavelmente mudaria de lugar, ou, se ficasse ali e respondesse, veria que ele não tem assunto nenhum. Decidiu ficar quieto, era o mais sábio que podia fazer. Entre uma linha e outra do texto forçava a vista para o lado e olhava-a um pouco; aqueles cabelos negros que desciam até o busto, os olhos castanhos, as covinhas nas bochechas; não se lembrava de alguém que ficasse tão bem em roupas tão casuais.

Ela lia a revista de ofertas daquele supermercado onde ele comprou os chicletes. Também havia comprado chicletes lá, antes do filme. Era inquieta, mexia as pernas o tempo todo, então começou a estalar os dedos. Sem perceber ele também estalava os seus, era vício, só reparou no que fazia quando trocou o livro de mão para estalar os cinco outros. Ele nem notou, mas ela viu que faziam a mesma coisa.

"É gostoso, né?", ela sorriu.

"O quê?"

"Estalar os dedos. Eu não consigo parar."

"Ah... é, eu já até desisti de não fazer. É bom mesmo", ela devia ser daquelas pessoas que precisa conversar com quem está ao lado. Ele fechou o livro, mantendo o indicador na página em que estava, como fazia sempre, o que ela interpretou como um sinal verde para falar.

"Vai ver que filme?", ela perguntou, "ah! eu também!", ao ouvir o nome do filme e a sessão.

"Esperando alguém?"

"Não."

"Cinéfila?"

"Muito. Você tá sozinho também?"

"Uhum."

"Cinéfilo também?"

"Nem tanto."

Então pedaços de conversas se mesclaram a momentos de total silêncio. Ele guardou o livro, ela colocou a revista no lixo. Cinco minutos antes da hora do filme levantaram e entraram na sala.

"Pipoca?", ele ofereceu, ela aceitou. Quando sentaram-se juntos, mesmo estando a sala quase vazia, ele percebeu que dividiria a pipoca durante todo o filme, não ligou. Pelo contrário, acho até que gostou.

O filme começou, ela tirou da bolsa uma lata de Coca e brindou no copo dele antes de beber. Ele também bebeu, mesmo sem saber a quê. Os dois assistiam em silêncio, mas tinham a mesma mania de fazer sempre algum comentário, baixinho, que na maioria das vezes fazia o outro rir. Certo momento, pegavam pipoca ao mesmo tempo e seus dedos encontraram-se; ficaram ali, juntos, por uns minutos, e separaram-se como se seus donos tivessem só então percebido. Saíram da sala em silêncio, sem saber direito o que fazer, então se beijaram e foram cada um para um lado.

Dois dias depois ele estava na fila para comprar pipoca quando ouviu aquela voz doce que havia roubado seus sonhos nas últimas noites:

“E ainda diz que não é cinéfilo, hein.”

“É que eu não perco uma promoção, sabe. E gosto tanto de filmes.”

“Tem mais alguma coisa que você gosta por aqui?”

“A pipoca, claro”, ele sorriu e os dois foram juntos para a sala. Ficaram de mãos dadas, beijaram-se outra vez na hora de ir embora. E assim foram as semanas seguintes, nas duas noites em que o cinema era mais barato. Trocavam carinhos, gostavam do cheiro um do outro, assistiam primeiro um, depois dois filmes por dia. Não trocaram telefones, sabiam onde se achar. Criaram um tipo de relacionamento que talvez nem eles entendessem; sem qualquer tipo de compromisso, mas esperando ansiosamente pelo próximo filme.

Na primeira noite da quarta semana ela não apareceu. Meia hora havia se passado do horário de sempre e ele já havia lido muito mais Caio Fernando do que queria quando aceitou que ela não ia chegar. A princípio sentiu um misto de raiva e tristeza, ela não era diferente, se cansara dele como todas as outras. Depois lembrou-se que o mundo não girava em torno de seu umbigo e pensou que ela poderia estar doente, ou com algum tipo de problema, e se xingou por não ter nunca pedido seu telefone. Por fim, foi embora cabisbaixo, meio preocupado, meio triste, totalmente rejeitado.

Dois dias depois ela mais uma vez não apareceu, e dessa vez ele não aceitava que pudesse ter algo errado com ela. Estava abandonado, era fato, o cinema voltaria a ser atividade solitária. Não a culpou. Assistiu ao filme que havia escolhido antes de sair de casa, mas o ingresso nunca lhe pareceu tão caro, a pipoca estava sem sal, a Coca sem gás e o filme – muito bom! – era chato.

Ele devia aceitar, sabia disso, mas não conseguia. Foi até o cinema na noite de sexta, comprou uma pipoca e sentou-se onde só seria visto se alguém o procurasse. De alguma forma, sabia que ela iria lá naquele dia ‘errado’, e acertou. Viu-a chegar pela escada rolante; seu coração acelerou, suas mãos transpiraram, e uma forte dor invadiu-lhe o estômago quando viu que ela não estava só. Chegava de mãos dadas com alguém que seria facilmente definido como oposto a ele; eram tantos os sorrisos dela que ele quase ficou feliz.

Naquela noite ele chorou sozinho em seu apartamento, secou as lágrimas com várias doses de conhaque. Demorou seis meses para ir ao cinema de novo e, quando foi, chorou outra vez. Então comprou o maior saco de pipoca, um copo de Coca que não era menor, e voltou a assistir um, talvez dois filmes por dia, nas noites de promoção.


Tyler Bazz

15 comentários:

mariana disse...

até aparecer outra menina linda e fazer a mesma besteira ou não.

Contando casos e besteiras disse...

Faltou um pouco de atitude dele, não? Mulheres sempre gostam disso...
;)

Marina disse...

Ah, poxa... Às vezes eu esqueço que é você quem está escrevendo e espero um final feliz. hahaha
Ele podia ter tomado uma atitude antes. Talvez ela estivesse se sentindo usada ou rejeitada. Ou talvez ele que fosse o passatempo dela. Vai saber...

Abraço, Tyler. Ótima história, como sempre.

Marcio Sarge disse...

Ele deveria ter pensado que chifrudo foi o outro e cantar de galo aos amigos esse fato. rsrs

Cara! Você consegue não superar as expectativas nos finais de contos.
Talvez por isso seja tão bom nisso.

MaxReinert disse...

ai ai...
Esses cinemas a dois...
Como era bom!

Gabriel Leite disse...

Ótima história! Romântica, triste e bem realista.
E deu uma vontade de pegar a próxima sessão!

Abraço

Nadia disse...

Sabe que se o final da história fosse feliz, ou simplesmente diferente, eu acho que eu não gostaria tanto.

E não pergunta porque eu gostei... eu não sei a resposta.
Só achei triste e bonita... e gostei.

Dani Vieira disse...

Que final mais trágico!


Mas segundo aquele clichê de fim de tunel: "Melhor um fim trágico do que uma tragédia sem fim"
;D

Gostei da história

beijo

Pâmela disse...

Tadiiiiiiiiiiiiinho :( Você tortura seus personagens.

Sam disse...

Poxa, fiquei com dó do cara. Depois de um trauma desses, eu também ficaria um bom tempo longe do cinema!

Beijos

Cissa disse...

não há tempo que cure e faça esquecer completamente uma dor dessas, de amor. [assim, bem brega mesmo, porque é assim que funciona]

Larissa Bohnenberger disse...

Pobre cinéfilo solitário!
Mas com certeza ainda aparecerá alguma outra menina linda de voz doce para sentarao seu lado nas noites de promoção... espero que sim!
Bjs!

Barbarella disse...

Adoro ir ao cinema e não me importo se vou sozinha ou acompanhada, mas é por isso e por outras que quando vou sozinha nem olho para os lados, para uns uma esnobe e metida mas para mim, na defensiva. Menos envolvimento, menos sofrimento.

É isso.

**

Varotto disse...

Esse é Tyler, o cavaleiro das tristes conclusões, o Dom Quixote de São José do Rio Preto...

Boa história...

Fernando Ramos disse...

Este sim ficou muito bom! Gostei mais do que do Assassino Fardado. Mas sou suspeito, pois leio e escrevo muito sobre situação de homem-mulher, amores etc.

Minha teoria era a de que ele estragou uma história bonita. Não tivesse ido no dia errado, não descobriria a verdade...mas em compensação, se torturaria o resto da vida se perguntando por que não pegara o telefone. É uma sinuca, na verdade. Como todas as paixões.

Gostei do final porque ilustra o que o clichê de dar tempo ao tempo funciona. Dói, mas funciona.

E na minha opinião, ela deve ter brigado com o namorado, que não curtia muito ir ao cinema. Na única noite que resolveu ir sem o traste, encontrou o carinha da pipoca grande, da Coca nada menor e gostou. O tratse percebendo que sua namorada estava diferente, mais feliz após a sessões noturnas de cinema, repensou e achou que ela era linda demais pra ele não se privar da mesquinharia de não acompanhá-la ao cinema.

Agora, Tyler, responda e sem onda: quais filmes eles assistiram juntos e qual filme ele assistiu sozinho e ela com o namorado?