sábado, 6 de dezembro de 2008

O Encontro

Desceu do carro parado próximo a um chalé, tirou os óculos escuros e olhou. A areia branca da praia refletia o forte sol das onze da manhã e fazia arder os olhos; um pouco à frente as ondas quebravam e, lançando à vista na direção do horizonte, ela via o mar azulverde gabar-se de seu gigantismo. Respirou fundo e sentiu a umidade invadir-lhe serenamente o corpo, cada sentido aguçado e aproveitando cada sensação daquele momento. Tirou ali mesmo as roupas, havia viajado com o biquini por baixo, e foi com passos curtos - não era alta - em direção à água.

Tinha dezoito anos e nunca havia visto o mar. Sempre quis, sempre sonhou, sempre desejou em segredo, mas nunca teve a oportunidade. Já tinha imaginado de tantos jeitos diferentes como seria seu encontro que agora não conseguia se lembrar se alguma vez esteve certa. Quando os pais disseram que iam finalmente à praia, sentiu uma alegria que frustraria qualquer escritor. A irmã mais nova, que já havia ido duas ou três vezes com o namorado, não entendia tanta alegria, e tinha certeza de não ter sentido nada parecido. Viajou os quase seiscentos quilômetros do norte do estado de São Paulo ao Guarujá acordada, mas na descida da serra foi vencida pelo sono e adormeceu. Despertou com o barulho da cidade e pediu e pediu e pediu para que fossem direto à praia, que poderiam levar as coisas até o apartamento depois.

Pisou na areia, que de início queimava um pouco as solas delicadas dos pés, mas a temperatura diminuiu conforme o mar se aproximou. Sabia que se lembraria de cada passo daqueles, e era só neles que se concentrava. Não reparou nas crianças correndo atrás dos cachorros que corriam atrás de outras crianças, nem nos vendedores, nem em mais nada. Também não repararam nela, seu corpo pequeno e claro não era do tipo que chamava a atenção por ali. Via a areia, e o mar, e uns pássaros que ao longe voavam bem próximos dele. Chegou à água e nunca pensou que seu coração pudesse bater tão rápido; sentiu-lhe cobrir os pés e os tornozelos, ficou parada apenas sentindo, afundando um pouco na areia cada vez que o mar ia o voltava. Após uns minutos ali, parada, passou a andar, com passos ainda lentos, e sentiu a água fria chegar-lhe aos joelhos, e às coxas, e quando estava pela altura dos quadris, mergulhou, cobrindo-se da salgada água e voltando logo em seguida para a superfície, ainda olhando para o horizonte. Demorou mais uns segundos, deu a volta e foi em direção ao carro, onde a mãe esperava com toalha e um coco cheio d'água.

No carro não ouviram sua voz, nem enquanto guardavam as coisas nos armários, nem nos vinte minutos seguintes, que gastou lendo. Durante o almoço voltou a falar, conversou normalmente com a família sobre vários assuntos, mas nada disse sobre o mar. Ninguém disse, aliás, o assunto simplesmente não surgiu. Viu um pouco de tv depois e voltou a ler. Por volta das três da tarde a irmã entrou no quarto sem a parte de cima do biquini, pedindo opinião sobre qual usar; decidiu-se pelo azul. Percebeu o movimento na casa crescer, o surgimento das cangas, o cheiro do sundown, já sabia. A mãe logo entrou no quarto chamando-a, que iam para a praia aproveitar o sol do fim da tarde. "Não vou não, mãe", ela disse. E quando a família toda lhe perguntou todos os porquês possíveis, só pôde respirar fundo, desviar os olhos do livro pela primeira vez e responder, com olhar triste:

"É que eu não gostei."


Tyler Bazz

15 comentários:

Anônimo disse...

vale qto ser a primeira? =P
lol
Lady Dari

Jú Carvalho disse...

Cara, vc é chato!
Hahahaha
adorei (:

V.H. de A. Barbosa disse...

Eu, Rio de Janeiro, 2001.

Devo ter lido os 3 primeiros Harry Potter naquela semana.

Os Estranhos tem jeito de ser macabro.

Gabriel Leite disse...

Broxante!

abutre236 disse...

Esse final foi realmente broxante. Fiquei com raiva da tal menina.

Janine disse...

eu tb fiquei com raiva dela!
que praia sem graça foi essa que ela visitou!?

Only Bruh. disse...

Ah, vc escreve muito bem, cara, parabéns!
É...às vezes a gnt fica mesmo a vida toda esperando uma grande coisa, e quando ela finalmente aparece, o sorriso murcha e você vê que não é tudo aquilo. Existe muita diferença entre imaginação e realidade.

Li alguns contos seus abaixo, muito bons! Gostei! Bjos.

André disse...

Não vou não, mãe",

e para ter a coragem...
interassante...parabens
www.blogdaincerteza.blogspot.com

Marina disse...

Hahuhauahuahuahau! Acho que ela esperou tanto, fantasiou tanto que terminou se decepcionando. Isso acontece. Só fico pensando como ela pôde se decepcionar com o mar...

No "meu" mar, não tem água fria. Só senti água fria no mar quando viajei pra longe.

Abraço!

Beleza de Ser disse...

É... tem coisa que é adorável apenas na fantasia. A realidade em alguns momentos sempre frusta a expectativa.

Larissa Bohnenberger disse...

Tyler, se tu tivesse aqui na minha frente, agora, eu te esganava!
Eu aqui, maravilhada com a poesia do momento vivido pela protagonista, me imaginando na situação dela, eu, que amo o mar mais do que qualquer outra coisa no mundo e que infelizmente não tive a lembrança da primeira vez que vi o mar, e tu me dá um pontapé desse na boca do estômago??? Fala sério! Ninguém te merece!
Eu até achava que o final ia ser de cortar o clima, mas imaginava algo mais trágico como a guria ir entrando no mar, cada vez mais fundo e não voltar mais... rssssss!
Só tu mesmo, pra me rachar a cara deste jeito... rsss!
Bjs!

guk disse...

Mto bom o blog

Varotto disse...

Gostei muito da imagem: "...sentiu uma alegria que frustraria qualquer escritor"

Quanto ao final: sensacional!

(e olha, que eu gosto de praia...)

MaxReinert disse...

huahauhaa... olha que eu sei exatamente o que essa menina sentiu!!! Tenho uma atração imensa pelo mar... pelas coisas dela... mas não gosto de ir à praia.

Acho chato.. salva em raras excessões!!!

Fernando Ramos disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Fora o desfecho simples e sincero dela, Tyler, é impossível não imaginar a irmã entrando no quarto sem a parte de cima do biquini!