quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O Assassino Fardado

“‘Assassino de Fardas’ ataca novamente – Polícia afirma se tratar de criminoso serial”, era essa a manchete do jornal mais lido do país. Olívio Carvalho, o responsável pela investigação, lia na mesa da cozinha e tomava mais e mais chá gelado, que a esposa o havia obrigado a beber no lugar do café, argumentando que café só servia para estressar ainda mais o homem. Não adiantava, uma geleira não esfriaria sua cabeça. "Filho da puta", ele repetia em voz baixa, "filho da puta." Eram sete da manhã, Olívio havia dormido apenas duas horas e já precisava voltar ao trabalho.

Há pouco mais de um mês Olívio não dormia direito, desde algumas semanas depois que o tal assassino começou a atacar. Em cinqüenta dias, oito oficiais mortos, todos fardados. E parecia ser essa apenas a semelhança entre eles; os crimes não ocorreram da mesma maneira, ou no mesmo lugar. Nas primeiras mortes, tudo foi tratado de maneira comum, como policiais mortos a serviço, ou por bandidos comuns. Quando o terceiro corpo apareceu, a inteligência da polícia começou a trabalhar com a hipótese de um maníaco.

Era uma mulher, a vítima, policial. Havia sido morta por sufocamento, mas a autópsia revelou que houve estupro; as marcas espalhadas pelo corpo mostravam que ela esteve nua e amarrada. Descobriu-se então, também, que o criminoso era um homem. "O cara tirou a roupa dela, estuprou, pôs a roupa de volta e só então matou", dizia Olívio, recém chegado à cidade, em cujas mãos o caso havia acabado de cair, "não tenho dúvidas de que este homem é completamente maluco." O psicólogo da polícia, que participava da reunião com o secretário de segurança e outros figurões, protestou, dizendo que, além de não ser aquele o termo correto, não seria possível fazer tal afirmação sem um longo exame do paciente. "Pois eu tenho certeza que já peguei muito mais malucos que você, doutor, e garanto, esse aqui é dos bons."

Depois disso, outras mortes ocorreram, e as investigações ora se aproximavam de uma resolução, ora se afastavam. Um homem foi encontrado com duas facas enterradas no peito; outro foi morto com um tiro na cabeça e a arma, irrastreável, estava em seu coldre. A sexta e sétima vítimas foram mortas juntas, durante uma ronda noturna; a causa da morte foi espancamento e não foram encontrados vestígios de uma quarta pessoa, o que alimentou em todos os envolvidos com o caso a certeza de que se tratava de um homem extremamente forte e raivoso.

Olívio deixou o jornal sobre a mesa da cozinha e saiu para o trabalho, não sem antes beber escondido da esposa uma xícara de café sem açúcar. No caminho, remontava em sua cabeça todas as peças da noite anterior, quando o oitavo corpo foi encontado; pensava se devia ou não conceder uma entrevista à imprensa, mas tinha certeza de que mandaria uma carta ao editor do tal jornal, reclamando sobre algumas coisas escritas na reportagem que 'pecavam no compromisso com a verdade', isso, era uma ótima expressão. Na chegada ao escritório, passou por algumas viaturas com seus policiais fardados, ficou feliz por um momento, pensando em como havia sido boa a decisão de fazer parte da inteligência, afinal qualquer um daqueles homens podia ser o próximo, mas não ele. "Nada disso!', falou em voz alta para si mesmo, "ninguém vai ser o próximo, nós vamos pegar esse maluco! eu vou!"

Na reunião com os mais altos escalões envolvidos no caso, Olívio se divertia ao ver o rosto do psicólogo ficar vermelho cada vez que ele chamava o assassino de maluco. "Um homem que era policiail há vinte anos, casado e pai de duas filhas, foi encontrado enforcado ontem à noite", Olívio disse após mais um protesto do médico, "será que eu estou tão errado ao chamar ele de maluco?". Todos na sala concordavam com Olívio, mas seguiam o protocolo e sempre se referiam ao homem como "o suspeito".

Olívio já estava cansado daquilo tudo. Pela segunda vez naquela semana, porém com mais veemência, defendeu que pusessem em prática seu plano para pegar o criminoso. Ele concordava que era um plano arriscado, ambicioso, perigoso, mas argumentava que não podiam continuar perdendo oficiais, que o maluco continuaria a atacar, que a imprensa continuaria a pressionar e a população continuaria a perder a confiança na polícia. "Podemos tentar", disse o chefe geral da polícia, "mas tudo tem que ser perfeito. São muitas pessoas envolvidas, muitas vítimas em potencial; além disso, quem aceitaria ser a tal isca?"

"Eu voto no doutor", respondeu Olívio, olhando para o médico que ficava cada vez mais vermelho.

"Isso é impensável!", o psicólogo retrucou, tirando risos de Olívio.

"Eu sei, eu sei. Queria só ver sua cara... já esperava um apavoro desses."

"E quem vai ser então?", perguntou outro dos homens da reunião. Todos se entreolharam.

Um policial comum acabou se oferecendo, o que os chefes da polícia prontamente aceitaram. Olívio teve dúvidas, mas o homem mostrou-se ser muito esperto e extremamente preparado - talvez, se tudo corresse bem, conseguisse um lugar na inteligência. O plano foi pensado, montado, ensaiado, sempre com muito cuidado para que informações importantes demais não vazassem. Duas noites depois, estavam todos a postos.

"Se a doença do cara é mesmo contra pessoas fardadas, nós temos muito mais de uma isca aqui hoje", dizia um oficial que trabalhava de terno e gravata ao lado de Olívio.

"Pode ser. Mas nossa isca é a vítima mais fácil. Se ele é tão maluco quanto eu penso, vai para o que der menos trabalho."

"O que será que faz alguém fazer isso?"

"São mais possibilidades do que a gente imagina. Quantos meninos não perdem os pais em ações erradas da polícia? Ou são humilhados em rondas noturnas de rotina? Ou qualquer outra coisa. Não dá pra saber, a gente pode só especular."

"Pra mim, isso é coisa de marginal."

"Eu sei." - Olívio fez um sinal pedindo silêncio, fingindo ouvir alguma coisa. Fingiu bem, o oficial a seu lado parecia também ouvir algo e a conversa morreu pelo resto da noite. O assassino atacou a isca e foi pego. Os chefes da operação tiveram trabalho em para conter os outros policiais, que queriam acabar com o criminoso ali mesmo. Ele era um homem morto, todos sabiam, mas todos queriam ter o gostinho de apagar o sujeito.

Levaram-no sob um forte esquema de segurança para o quartel-general da investigação. Lá, tentaram interrogá-lo, mas o criminoso nada dizia. Suas atitudes eram as de um preso normal, não parecia ter problemas psicológicos, distúrbios de comportamento, nada. O psicólogo tentou sem sucesso tirar algo dele, dando inclusive falsas garantia de que nada aconteceria ao homem; não adiantou, ele não abriu a boca por toda a noite, a não ser para pedir um copo de água, ao próprio psicológo.

Discutia-se muito sobre o que fariam com o homem. Ele não falava, não parecia que ia falar. Além de tudo, corriam o risco de algum policial, a qualquer momento, matar o criminoso, na certeza de tornar-se um herói perante toda a corporação. Aquilo não podia acontecer, diziam os chefes. Então Olívio, na janela encarando o sol que começava a nascer, teve a idéia.

"Ele vai se suicidar", disse, virando-se para os outros homens na sala.

"Mas como?", alguém perguntou.

Outro continuou: "É mais difícil do que parece fazer um assassinato virar suicídio."

"Não, não. É suicídio mesmo", Olívio explicava seu plano, "o que foi que fez ele matar todos os homens que matou?"

Alguns segundos de silêncio. Finalmente, o psicólogo respondeu: "Todos estavam fardados. Mas eu não concordo que-"

Olívio interrompeu. "Doutor, esse cara vai se matar, e de quebra vai provar que é um filho da puta de um maluco."

O plano foi explicado e, pouco tempo depois, o criminoso via-se sozinho numa sala, sentado em uma cadeira. Em cima de uma das mesas, um revólver carregado e mais nada. Os oficiais que ajudaram a resolver o caso, protegidos por um vidro blindado e que não permitia que fossem vistos, observavam o assassino, que não mais vestia os jeans e a camiseta preta com que foi preso, mas sim uma farda de policial militar.

Todos esperavam. Olívio havia garantido que o cara era louco, que não perderia uma oportunidade de matar alguém fardado, mesmo que fosse ele mesmo. Nada acontecia. O psicólogo, em silêncio, sentia-se satisfeito com a falha de Olívio. Este, esperava e pensava. O assassino continuava sentado, olhando para os lados, para o alto, examinando toda a sala.

"Parece que precisamos de um plano novo", disse um dos chefes da polícia.

"Ainda não", respondeu Olívio.

"Apenas aceite que você estava errado, senhor Olívio", cutucou o psicólogo.

"Não estava, doutor. Eu vou lá."

Todos se entreolharam, pensando que não era o apenas criminoso o possível louco ali. Ele precisa ser convencido, pensava Olívio, que entrou na sala. "Bom dia, senhor." O assassino olhava-o, intrigado. "A operação está pronta, precisamos apenas do seu ok para começar a agir, senhor", disse e saiu, voltando para trás do vidro, com seus colegas.

O criminoso tinha então os olhos arregalados e uma expressão pavorosa no rosto. Transpirava muito, nervoso, e percorria toda a sala com olhos, até que pousou-os na arma. Levantou-se rapidamente e pegou-a. "Militar desgraçado", ouviram-no dizer antes de disparar um tiro contra o próprio rosto. Letal.

Olívio Carvalho sorria.


Tyler Bazz

11 comentários:

Marcello disse...

Doideira... ele só queria se suicidar.

Anônimo disse...

o.O
vai saber...

tem loko pra td!

vou ler de novo


dari

Nadia disse...

Ahhhhh Tahhhh...
Adoro gente maluca, tão previsíveis.
xD

Gostei.

Contando casos e besteiras disse...

Agora já pode virar redator de algum desses C.S.I.s da vida!;)

Fernando Ramos disse...

Muito bom, Tyler!

"Olívio se divertia ao ver o rosto do psicólogo ficar vermelho cada vez que ele chamava o assassino de maluco."

Sempre tem algum imbecil ou instituição imbecil pra achar errado o que todo mundo sabe ser o certo, não é verdade? Sua sorte foi que em teu conto o pessoal dos direitos humanos não apareceu, do contrário, não poderiam algemar o meliante. É de foder...

taiscarla disse...

O.o
doido eh apelido...

Sam disse...

Que obsessão pela farda! E estas instituições policiais que só querem saber de pegar o cara para benefício próprio...

Como sempre, muito em um texto só ^^

Beijos

' bell disse...

wow, não sei se eu que estava meio pilhada ou o quê, mas fazia um tempo q previa o fim das histórias, mas essa... mto boa ;]

ah, em meio a ela, eu imaginei coisas ligadas a múltiplas personalidadedes... a algum tempo lí sobre uma artista plástica -de nome Kim, pelo menos em cartório- que tem 21 (e cada personalidade tem um estilo de pintura diferente. É assim que ela sabe quem foi a última que passou por "ali")... achei legal... imaginei as histórias que poderia gerar...

mas é isso... gostei msm do texto...
;*

Elis disse...

Que mente mirabolante a sua.
Mais mirabolante que a de Olívio Carvalho, e muito mais mirabolante (só pelo prazer de repetir essa palavra) que a do assassino, eu diria.

"Se não leu, NÃO COMENTE. Poupe-se dessa vergonha." Medo de você, principalmente pelo uso das maiúsculas =P

Elis disse...

Ah! E a piada do paraguaio é um clássico né. É quase impossível sair aqui em Leme e não ouvi-la nenhuma vez.

JAIRCLOPES disse...

Excelente! Esse estória policial com final tragicômico pode constar como sendo de autoria de Edgar Alan Poe "post mortem" sem qualquer demérito.