terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Louis Fernán - Tecnologia

Louis Fernán acordou naquele sábado amaldiçoando o calor que fazia na cidade de São Paulo. Foi acordado, na verdade, pois na noite anterior havia esquecido de fechar a janela e o sol entrou desde cedo, forte, decidido, queimando o rosto do detetive. Ele virou-se, escondeu-se, sufocou sob o travesseiro, tudo para não levantar e ir até a janela fechá-la, mas não adiantou. Às nove Lou já estava de pé, limpo, barbeado, e tomando café na xícara vermelha, nova. O dia tinha cara de que seria longo e tedioso; sem trabalho à vista, só seus livros, ficou à vontade para colocar um pouco de whisky barato no café, em todas as três xícaras.

Por volta das dez e meia, quando Lou já tinha os olhos pesados de álcool e as pernas dormentes de estar sentado na mesma posição, a campainha tocou. Uma, duas, na terceira vez ele levou a sério e foi atender. "Aqui é o escritório do detetive Louis Fernán?", perguntou nervosa a mulher de uns quarenta e cinco, belíssima, maquiada, tremendo. "Escritório, casa e esconderijo de damas em perigo", Lou respondeu. O detetive não se relacionava – nem mesmo sexo – com ninguém desde a morte de sua esposa, há dez anos, mas ficava meio engraçadinho sempre que bebia demais pela manhã. "O senhor está bêbado?", a mulher, Cecília, perguntou ainda mais nervosa. "De jeito nenhum", ele sorriu, enquanto abria a porta e lhe mostrava a cadeira.

Cecília tinha cabelos tingidos de louro num tom escuro, seus olhos verdes percorriam o escritório-morada do detetive, pensando se seria mesmo verdade tudo o que disseram sobre ele. Não era possível que fosse tão bom e morasse naquele lugar; certo, a localização é boa, mas a desordem salta aos olhos e desvaloriza qualquer vida.

"Em que posso ajudar?", o detetive perguntou, sentado atrás de sua mesa, já com a voz muito mais sóbria depois de virar uma caneca inteira de café puro e amargo.

"Minha filha", a mulher tinha lágrimas nos olhos, "desapareceu." Lou se mexeu em sua cadeira, casos de filhos desaparecidos não costumavam render muita coisa; normalmente a criança reaparecia depois de algumas horas, ou nunca mais, e casos não resolvidos incomodavam bastante o detetive. Ele movimentava as mãos, "preciso de mais informação que isso, dona..."

"Cecília. Cecília Rosenheim." – O detetive imediatamente reconheceu o nome e a esposa do mais famoso vereador da cidade, eleito dois anos antes com uma milionária campanha. Imaginou que, pela posição da família, não teriam ainda procurado a polícia, para evitar qualquer tipo de escândalo, mas perguntou mesmo assim: "Já foram à polícia?"

"Não", ela respondeu, "meu marido está rodando a cidade em busca dela e eu vim aqui para contratar o senhor. Não queremos envolver a polícia nisso, pois polícia significa imprensa, e tudo que não queremos neste momento é perder a tranqüilidade." – O balançar de cabeça de Lou mostrou a ela que ele já tinha entendido; fez algumas perguntas que o ajudariam a iniciar as investigações, disse algumas frases que, segundo sua experiência, tranqüilizariam a mãe desesperada, garantiu que faria tudo o que estivesse a seu alcance para encontrar a garota – Clarissa – e logo se viu sozinho novamente. Colocou seus óculos escuros, apoiou-se na janela, observando o movimento na Avenida Paulista, e ali ficou por quase duas horas, girando uma caneta entre os dedos e trabalhando.

***

Clarissa, a menina, havia saído no início da noite de sexta, dizendo aos pais que ia com a Li a uma festa, na casa de um tal Fábio. Lou tinha os nomes, endereços e telefones dos amigos mais próximos, incluindo Fábio e Li, que se chamava Lia, o que deixou Lou inconformado, afinal o nome era curto demais para ter um diminutivo. Saiu de casa para o metrô; podia estar com os olhos vivos, buscando um metro e sessenta e oito mais ou menos de pele clara, cabelos castanhos, bonita, mas nem tirou os óculos, só quando entrou na estação. Foi direto para a casa da Li, onde bateu, chamou, e ninguém respondeu. Descobriu com umas vizinhas que a menina morava sozinha, era "meio maluquinha", e foi vista por elas pela última vez na sexta mesmo, na hora do almoço, saindo com uma mochila nas costas.

Lou resolveu ir direto à fonte, estava sem paciência para interrogar adolescentes metidos a arrogantes, inflados pelo dinheiro de seus papais empresários e pela beleza de suas mães modeletes e ausentes. Chegou à casa de Fábio e mudou totalmente seus conceitos do que era uma casa grande. Aquilo merecia uma categoria própria, talvez um cep próprio. Uma empregada atendeu o interfone, viu o rosto do homem escondido pelo chapéu e pediu que pudesse vê-lo pela câmera, Lou arreganhou os dentes para a lente e esperou enquanto a moça chamava o "Fabinho"; o moleque devia tentar dia após dia se enfiar entre as pernas da empregada e ela nunca deixava, mas gostava, ah se gostava!

O garoto recebeu o detetive na varanda vestindo bermuda de surfista, camiseta regata para mostrar os músculos, boné; Lou suava por baixo da camiseta preta, já havia vestido novamente o chapéu. Não tinha tempo muito menos paciência para enrolar, perguntou: “Sou o detetive que a mãe da Clarissa Rosenheim contratou pra achar a menina. Ela saiu ontem pra vir numa festa aqui. O que você sabe?”

“Nada”, o menino respondeu, sorrindo. “Ela veio, com a Li, deve ter saído com a Li também. Procura a Li.”

“E você não sabe de mais nada? Acontece uma festa aqui, duas garotas somem, e você acha mesmo que vai dizer que não sabe nada, sorrir, e voltar pra vidinha?” – O telefone do garoto tocou antes da resposta; enquanto ele falava com a ‘meu amor’, Lou ficou quieto, pensando e ouvindo a conversa. Deduziu que a menina não só não esteve na festa como também nem sonhava que algo do tipo tivesse acontecido na noite anterior. Era o que ele precisava. Logo que pôde continuar a conversa, sorriu: “Que coisa feia enganar a namorada, Fabinho. Por que não conta pra ela da festa?”

“Isso é assunto meu. Que que você quer, hein? Já disse que não sei de nada.” – Não há garoto mimado no mundo que não se exalte diante de um perigo, por menor que seja. Lou foi rápido, uma pequena ameaça disfarçada, umas perguntas inteligentes, e em menos de cinco minutos ele saía daquela casa sabendo que Rafael, primo do Fabinho, chateou a Li durante a festa toda querendo levá-la para o quarto. A garota parecia não querer, Rafael insistiu tanto que irritou a Clarissa, que pediu ao Fábio que desse um jeito no primo, que estava bêbado o suficiente para achar que a levaria para o mesmo quarto; segundo Fábio, quando as meninas foram embora, o primo foi atrás, decidido a tentar mais uma vez. Lou já sabia quem procurar.

Comeu algo na rua para se manter de pé e foi até a casa de Rafael. Era bem menor que a de Fábio, embora também fosse muito bem localizada. O próprio garoto atendeu o interfone, com voz de quem acabava de levantar e encarava a ressaca. “Aqui é Louis Fernán,” o detetive falava alto pelo comunicador, “preciso falar com você sobre Clarissa Rosenheim.” O garoto não reconhecia o nome, Lou pediu para falar com ele pessoalmente e foi recebido na sala por um rapaz que aparentava ser mais novo do que realmente era, que vestia pijamas e tinha no rosto algo que nem em vinte anos se transformaria em barba, não era bonito. “Você estava numa festa ontem, na casa do seu primo, certo?”, Lou perguntou, o garoto confirmou, mas negou novamente que conhecesse qualquer menina chamada Clarissa. No entanto, conseguia lembrar-se de uma ‘ruivinha bem gata’ que não quis nada com ele.

“Essa ruivinha é a Li, Lia, amiga da Clarissa. As duas estão desaparecidas desde ontem à noite, e seu primo Fábio me contou que você saiu da festa atrás delas quando elas foram embora. Eu tenho quase certeza que você tem alguma coisa a ver com esse sumiço”, Lou acendeu um cigarro.

“Olha, seu Louis”, o garoto tinha no rosto ao mesmo tempo medo e calma, “eu não lembro de muita coisa daquela festa de ontem. Eu tava muito, muito bêbado, e lembro que queria de qualquer jeito pegar a tal da ruivinha, então quando o Fábio me falou que elas tavam indo embora, eu saí atrás delas, mas não achei elas. Eu achei foi a... é... a menina que tá dormindo no meu quarto. Ela tava mais bêbada que eu, então a gente veio pra cá e eu nem lembro se rolou alguma coisa ou se a gente só dormiu.” Lou não estava nem um pouco inclinado a acreditar naquela história, mas o garoto acrescentou com bastante tranqüilidade: “Eu posso chamar ela se você quiser.” O detetive disse que não precisava acordá-la, mas fez questão de ir até o quarto e ver que realmente havia alguém dormindo na cama do garoto, uma menina de cabelos descoloridos e pés delicados, largada entre os lençóis. Agradeceu o garoto e foi embora, detendo-se na porta:

“Acho que o nome dela é Camila.”

“Como você sabe?”

“Está escrito no tênis.”

***

Lou foi para a casa dos Rosenheim, onde era esperado por Cecília e pelo marido, que havia colocado nas ruas os três seguranças da família e nem pensava ainda em envolver a polícia no caso. A mulher protestava e pediu para que o detetive intercedesse, mas ele explicou que a decisão devia ser tomada pelos dois, que ele apenas investigava. Sentaram-se os três à mesa, Lou recusou a bebida oferecida pelo senhor Rosenheim, mas aceitou uma xícara de café, então relatou, editando da forma como achou melhor, suas investigações e a falta de resultados, em seguida pediu para que o casal se esforçasse em conseguir qualquer tipo de informação que pudesse ajudá-lo em sua busca.

Os pais de Clarissa estavam quietos havia mais de quinze minutos, Lou bebia a terceira xícara do fraco café. O senhor Rosenheim olhava pela janela, pensativo, tentando manter longe da cabeça a culpa por não ter se envolvido mais na vida da filha – seria inútil se tentasse, é verdade. Cecília andava de um lado para o outro, arrumando a posição de quadros e reclamando vez ou outra sobre algo da casa, em nenhum momento havia soltado o telefone celular, certa de que receberia a qualquer momento uma ligação da filha, ou de alguém dando informações, ou até mesmo, numa horrível hipótese, de alguém anunciando o seqüestro e pedindo o resgate – que ela pagaria de imediato, embora tivesse certeza de que o marido se recusaria a fazê-lo.

“Queria saber por que tem esse envelopinho que fica piscando aqui na tela, desde manhã está assim”, ela falava sozinha, mas querendo ser ouvida pelo marido, enquanto olhava intrigada o celular.

“Deixa que eu dou uma olhada”, Lou pediu, “eles lançam um modelo novo a cada quinze dias, quando a gente aprende a mexer com um, já está atrasado, né?” – o detetive falava com a voz suave, tentando fazer com que Cecília relaxasse pelo menos um pouco, ela esboçou um sorriso e entregou o aparelho, que Lou pegou e saiu para a área externa da casa. Cinco minutos depois ele voltou, devolvendo o celular à dona e pegando suas coisas de cima da mesa:

“Pronto, resolvido o problema do envelope. Nada que uma boa fuçada não resolva, e é isso que eu vou fazer, vou dar uma fuçada por aí e ver se encontro algo mais.”

O detetive então saiu, mas não foi fuçar nem investigar nada. Saiu e foi para sua casa, parando antes num super-mercado para comprar algumas cervejas. Duas horas depois, percebendo que logo começaria a ficar bêbado, ligou para os pais de Clarissa Rosenheim para concluir de vez o caso do desaparecimento da garota.

“Sim, Cecília, já descobri onde a Clarissa está sim. Calma, calma, está tudo bem, ela está bem. Ela e a Li estão no sítio que vocês têm no interior, isso mesmo, em Atibaia. Uns caras ficaram chateando elas na festa, a Li estava nervosa, e as duas resolveram passar o fim de semana por lá, pra descansar um pouco a cabeça dessa vida difícil que elas levam por aqui.”

Lou foi breve no que tinha que dizer: deu mais alguns detalhes sobre o caso, agradeceu aos Rosenheim por terem confiado nele para o trabalho, colocou-se à disposição para qualquer outro problema, passou para o senhor Rosenheim o valor final de seus serviços e o número da conta bancária em que o dinheiro deveria ser depositado.

Então desligou o telefone e aproveitou o resto do sábado, perguntando-se entre uma cerveja e outra se deveria ou não mandar um e-mail às empresas fabricantes de telefones celulares, agradecendo e pedindo que nunca deixassem de lançar novos modelos a cada quinze dias.


Tyler Bazz

13 comentários:

Nadia disse...

Eu acho muito justo que a empresa fabricante de celulares receba pelo menos um agradecimento.

xD

Littlemarininha disse...

Nossa, Atibaia eh aqui do lado de Itatiba! =D

Nao que isso seja importante, mas soh pra constar, huahua
Beijao!

Marcello disse...

AHHAUUAHUHAHUAHUHAUHAUHUAH

O Lou é meu ídolo \o/
XD

Aline disse...

Demais a história!Adoro um mistério e espero ver mais por aqui!

Beijos

Barbarella disse...

É isso ai Tyler, desenvolveu a estória com simplicidade, porém de forma envolvente, muito bom seu ritmo, não percebi nenhum tropeço.

Bjos

Dalleck disse...

Monk XD
Sensacional!

V.H. de A. Barbosa disse...

Gostei das inserções que demonstram desprezo pela elite. Bem típico de detetives beberrões.

Pâmela disse...

HAUHAUAHUA
Nooooooooooooooooooooooossa que mancada!
De verdade, coitada da mãe da menine, e vê se arranja uma namorada para o Lou. Ele é chatinho, mas interessante.

Pâmela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MaxReinert disse...

Da próxima vez ele já sabe por onde começar a investigação!
hehehehehehe

Gabriel Leite disse...

Nem lebro mais de Sherlock Holmes. Louis Fernán é O detetive!

E olha que só li duas historinhas dele. Vou procurar pelo marcador.

Perci Carvalho disse...

sabe esse cara do seu template? Eu sempre 'vejo' o Louis Fernán assim, com a cara dele.

Fernando Ramos disse...

CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP!

BRAVO! BRAVÍSSIMO!

Bom, Tyler, com este conto concluo que tens lido Rubem Fonseca. E que a tapada da guria que fugiu de casa com a amiga e virou notícia no Brasil te ajudou. :)

Algumas considerações:

Inicialmente achei que a Cecília Rosehein era mãe da Carolina Villenfuser, me frstrei por não ser. Hehehe.

Ri muito com a incoformação de Lou pela menina ter um nome de três letras e tô, ainda, reduzido a um apelido de duas. E ri mais ainda com a casa gigante, que merecia um CEP próprio! Muito bom isto!

Agora, francamente, falando como pai, essa guria, a Clarisse, merece uma surra com vara de goiabeira. Como ela some e manda uma mensagem? Que diabo é isto? Se bem que, melhor receber uma mensagem de que está num sítio com a amiga a voltar de nadrugada e ter transado com o Fabinho ou o Rafael.

Mas espera aí: e se Clarisse e Li forem lésbicas? Ai meu Deus... Aí é que o Rafael morre do coração.