sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Carta sobre o Fim

Hoje vi sua irmã, na entrada do cinema. Não a via já tem tanto tempo - por minha culpa, eu sei - que quase não a reconheci. Acertamos, nós dois, quando falamos anos atrás que ela se tornaria a mais bela de todas as garotas. Todos os seus traços estão lá, e ela tem aquela alegria inquieta que você tinha e perdeu, infelizmente. Não falei com ela, nem pensei nisso, e além do mais ela estava acompanhada de uma amigas e de uns meninos; deve estar dando trabalho aos seus pais.

Sinto falta das noites que passei na sua casa, quando a gente via tv sem som e ficava inventando as falas dos atores nos filmes, até cansar, e quando cansava a gente conversava, ou ficava ouvindo música no escuro, ou fazia qualquer coisa pra comer, enfim. Sinto falta de tudo isso, e odeio que tudo tenha acabado tão de repente, sem que eu pudesse ao menos dizer o quanto eu gostava. Não é preciso, eu sei, mas é.

Ainda não consigo me conformar. Eu, que sempre fui o mais racional de nós dois, não entendo ainda a forma como as coisas foram acontecendo e terminaram assim. Eram tantos planos feitos... você lembra daquela viagem pela europa que faríamos quando tivéssemos 21? Desembarque na Espanha, que ainda estaria quente, depois Paris, torcendo para ver um blecaute na cidadeluz, então muita cerveja na Alemanha, e na Holanda coisas que nossas mãe nunca ficariam sabendo; o final era sempre motivo de discordia, eu queria Londres, tomar chuva até ficar com raiva dela, você queria Roma, pra na verdade tentar me arrastar até a Sicília, Corleone. "Ficar bêbado em todas as cidades", eu dizia ser o objetivo; "ou pelo menos não ser preso", você completava. Acabei de chorar.

Ficaria tão mais dramática esta carta se eu, agora, trouxesse à tona uma paixão por você que sempre mantive escondida, que eu quase desejo que houvesse uma dessas. Mas não, não há. Sempre te amei, mas nunca te quis, e te conheço e sei que você é das poucas que sabem ouvir nisso um elogio. Ciúmes eu sempre tive, nós sabemos, e continuo tendo, e terei sempre.

Saudade. De tudo que aconteceu, do que não aconteceu, do que a gente planejou e do que a gente nem teve tempo de pensar. Acabou tudo tão, tão cedo, tão rápido, tão cruel, dói tanto, ainda. Saudade, me alimento dela. E vivo agora pensando os dias em você, fazendo o que posso para te proteger, e não deixando, nem por um minuto sequer, de amaldiçoar o dia em que morri.



Tyler Bazz

16 comentários:

Varotto disse...

Sinistramente belo...

Contando casos e besteiras disse...

Nossa, até chorei!

Nadia disse...

E mais uma vez me vejo narrando um dos teus textos.
Só não sei se isso é legal, bm, feliz ou trágico.

Cissa disse...

eu não sei o que dói mais: saudade do que aconteceu, ou do que não aconteceu.

Dalleck disse...

Belo fim triste...

V.H. de A. Barbosa disse...

Antes do final eu estava imaginando: "mais uma pegadinha do Mim para fazer as pessoas acreditarem que esse é um texto pessoal". Mas o final é surpreendente, bem sinistro.

Marina disse...

Como V.H., fiquei esperando a pegadinha do MIM. Confesso que adorei. Você nunca me decepciona, sempre surpreende. Orgulho-me em dizer que isso é coisa rara.

Belo texto, Tyler.
Abraço!

Míope disse...

Caixinha de surpresas.

Belo texto.
Abç!

Gabriel Leite disse...

Nunca vi uma pessoa gostar tanto de umas memórias póstumas como você. Mas essa ficou linda! Amizade é tudo de bom.

Tati disse...

Texto muito bem escrito. Inspirador.

Anônimo disse...

"Se não leu, NÃO COMENTE. Poupe-se dessa vergonha."
shuahsua
__

simplesmente belo
confesso q derramei algumas lagrimas.
ando emotiva d mais ...

parabens!

dari

Sam disse...

O ruim do final é que sempre tem um arrependimento por trás :(
A pegadinha do mim realmente foi muito boa.

Quanto à garoa paulistana, sempre vai ter uma história onde ela esteja presente.

Beijos

Pâmela disse...

êê povo emotivo aí em cima viu!
é bonito sim, mas eu nem cheguei a chorar não.

outroblogdamary.com disse...

Queria escrever como você.

Larissa Bohnenberger disse...

lindo texto! com um final daqueles que vc adora, que nos dá um tapa na cara, né? adorei! bjs!

Fernando Ramos disse...

Estava gostando do texto, daí com o final meio Machadiano, meio Woody Allen, detonou!

Muito bom, meu querido, muito bom!

Ainda acho que tens o dever de ler Oficina de Escritores.

Abraços!