domingo, 23 de novembro de 2008

Simplicidade

O despertador toca no quarto de Julia, às seis da manhã, enquanto ela está na sala, sentada em frente ao computador, na mesma posição em que esteve durante as últimas sete horas. Passou a noite acordada pensando no que ouviu do editor, logo antes de decidir que reescreveria em uma semana o que levou mais de três meses para ser escrito, era loucura. Poderia fingir uma doença e faltar ao trabalho para continuar escrevendo, e sem remorso, já que de certa forma a culpa vinha de lá, mas não tinha certeza se conseguiria. Tomou um banho e vestiu algo básico, como sempre, saia até os joelhos, camiseta preta, tênis também. Dois, três cafés em copo de requeijão, cogitou dar mais uma olhada no texto, mas o relógio avisava sete horas e ela tinha que sair para o metrô, senão se atrasaria. Desceu os oito andares, percebeu na rua que o dia deveria ser quente, desceu as escadas na estação, angustiada.

Julia, com seus dezenove anos, era secretária em uma agência de publicidade. Passava o dia sentada no saguão de entrada, atendendo telefones, anotando recados, preenchendo burocracias. Em seu horário de almoço, e às vezes quando faltava o que fazer, alimentava seu mais secreto hobby, escrever. Nunca nem havia pensado em publicar, tinha essa ilusão que algumas pessoas têm de que escrevem para si. Tudo é escrito para que alguém leia. E ninguém nunca tinha lido nada escrito por Julia até o dia em que começou a reforma na agência. O saguão foi levado abaixo e a secretária gentilmente removida para uma das mesas no interior da agência, rodeada de outras pessoas que trabalhavam freneticamente, mesmo quando estavam apenas paradas olhando para a tela do computador. Era um dia bastante tranqüilo, com poucas ligações e pouca papelada, o mundo parecia ter-se compadecido da agência e decidido diminuir a velocidade enquanto durassem as obras. Julia aproveitou a calmaria e passou o fim da manhã afundada em seu caderno, escrevendo, pensando que quieta daquele jeito ninguém a notaria. Mas não. Uma das diretoras da agência, mulher inteligentíssima, já passada dos quarenta e cinco, alvo de profunda admiração de todos ali, não tirava os olhos da jovem secretária. Tão simplesinha essa moça, o que será que tanto escreve, pensava. Quando Julia levantou, provavelmente para ir ao banheiro ou fumar, a diretora não demorou mais que trinta segundos para estar com o tal caderno em suas mãos, lendo o que parecia ser um ótimo conto recém-escrito pela secretária, que nunca havia dado nenhuma mostra de ter qualquer talento especial que não fosse o de filtrar ligações e ser amável.

A diretora, Rose, percebeu um certo pânico no rosto de Julia quando ela voltou de onde estava e viu seu caderno nas mãos de alguém. A garota queria atacá-la, mas não podia, graças à famosa hierarquia de trabalho que permite que patrões vasculhem a vida pessoal de seus empregados. O nervosismo de Julia só diminuiu quando a diretora sorriu sinceramente para ela, “Que talento você tem, menina!”, e chamou-a para conversar em sua sala. Lá, a secretária-escritora ouviu de Rose que ela tinha anos de experiência em criação artística e que sabia reconhecer quando algo é bom. Julia ouviu litros de elogios e, quando percebeu, estava concordando em entrar em contato com alguma editora, para ser publicada. Ela, a menina mais simples de todas, tornando-se uma escritora com livro à venda em livrarias. Um sonho. “Além de contos, você já pensou em escrever um romance, algo assim, mais sofisticado?”, Rose perguntou. Julia respondeu que andava com uma história na cabeça que poderia se transformar talvez num romance, curto, cento e poucas páginas no máximo. Ouviu conselhos de que deveria escrever a história, mas com um texto um pouco diferente daquele conto do caderno, que tentasse uma escrita mais rebuscada, que os editores gostam muito disso.

Naquela mesma noite, quando chegou em casa, ela fez café, deixou o disco favorito tocar, e escreveu até a hora de dormir. E assim foi por quase três meses, ao fim dos quais Julia anunciou a Rose que tinha o livro escrito, revisado, prontíssimo. Na verdade, faltava só o título, que a diretora poderia ajudar a escolher, depois de ler a história. Dois dias depois, numa tarde de sexta, Julia escutava novamente alguns bons conselhos de Rose. “Adorei como você escreveu, tenho certeza que a editora que te indiquei vai querer publicar. O título, Julia, tem que ser também sofisticado, para chamar a atenção das pessoas. E seu nome completo, qual é? Julia Carvalho? Não, não. Muito fraco, muito comum. Precisamos também de um nome artístico forte, rebuscado, que mostre logo de cara que você tem talento!”

Na segunda-feira, durante seu horário de almoço, Julia Carvalho, agora Julie Carvallini, era recebida por um importante editor de uma grande editora. Entregou a ele seu livro, “Indubitavelmente Incerto”, com um sorriso esperançoso no olhar. Não percebeu quando o homem, que aparentava ter pouco mais de trinta anos, torceu o nariz já para o título de sua obra. Voltou contente para a agência, onde Rose celebrava por antecipação o sucesso da garota. E o que é então que deu errado para que Julia estivesse agora passando noites em claro, reescrevendo aquilo tudo?

Três dias depois de entregar o livro ao editor, Julia recebeu dele, no início da noite, uma ligação. Era muito boa sua história, ele dizia, tinha todos os elementos para se tornar um grande sucesso de crítica, público e tudo mais. A escritora ouvia com alegria os elogios, imaginando que o fim natural daquela conversa seria a marcação de uma reunião para definir os últimos detalhes antes de publicarem o livro. Mas logo o tom do editor mudou: “Tem só uns probleminhas, Julia. Esse seu nome artístico, por que Julie? Julia é tão mais simples, tão mais bonito, acho que poderia manter. O título vai ter que ser mais simples também; esse é difícil até de pronunciar. E o texto, a forma como você escreveu, achei uma tentativa um pouco infeliz de mostrar sofisticação, você entende? Será que você não consegue escrever a mesma história de uma forma mais... simplesinha?”


Tyler Bazz

18 comentários:

Marcello disse...

Pessoas complicam tudo à toa...

Lady Dari disse...

eu complico td a toa
a maiora complica td a toa
gosto de complicar a toa

tatiana disse...

Simplesinha?? Ai que raiva dessa palavra...

Barbarella disse...

"Dois, três cafés em copo de requeijão.."

Tyler vc me mata de vergonha..rrs

hummm, vejo que logo logo teremos um livro....hummm vou correr com meu modelito ultra mega vc sabe...

Passa no Barbarella tb, temos postinho novo>

Do amor e seus mistérios... eu tô que não me aguento de sensibilidade e tal...

**

mariana disse...

acho bem que simplicidade é dádiva. complicar é muito fácil.

Érika disse...

"Comente": que ótimo!
Antes todas as coisas fossem mais simples e fáceis de se pronunciar.
Até.

Three Love´s disse...

hilário!!! Realmente... um ilustração da vida.
òtimo post

Marcio Sarge disse...

Ótimo texto Bazz meu amigo, agora falta você encarar um editor rs.

Julia disse...

Pois é, tem muita gente por aí com ares intelectuais que menospreza a simplicidade, que subestima, fecha os olhos para a beleza de coisas simples, pensando que é muito inteligente.

Fernando Ramos disse...

Porra, Tyler! Excelente, meu querido! Muito bom mesmo!

Acho que gostei muito por me identificar em termos com parte da história. Mas, tirando o meu viés, ficou realmente do caralho!

Algumas observações:

"Nunca nem havia pensado em publicar, tinha essa ilusão que algumas pessoas têm de que escrevem para si."

Esta frase vou estampar depois no meu blogue. É claro, dando os crédito com teu referido link, se assim permitir. O que tem de gente por aí que diz que escreve pra si mesmo...

Pergunta clássica: a Rose, quarenta e cinco anos, diretora da agência, era um mulherão? Sempre achei que Rose fosse nome de mulherão. Tive uma chefe chamada Rose, e ela era, digamos excepcional. Hehehehe.

"A garota queria atacá-la, mas não podia, graças à famosa hierarquia de trabalho que permite que patrões vasculhem a vida pessoal de seus empregados."

Este trecho também foi estupendo! Não preciso nem comentar o porquê.

No mais, acho que se Rose descobrisse essa veia artística dela, era mais capaz de empregá-la como estagiária ou trainee como redatora publicitária na criação da agência, a tentar publicar o livro dela. Hehehe. Mas é ficção. E ficção por ficção, ficou muito bom mesmo a forma que desmistificou o fato do rebuscado, do dofisticado. Fosse assim, Bukowski não existiria, assim como Rubem Fonseca, Luís Fernando Veríssimo, Khaled Hosseini e por aí vai.

Aprendi no livro Oficina de Escritores - o qual recomendo muito, mas muito mesmo pra ti; sério, Tyler, não deixe de ler - que este estilo mais simples de escrever, chamasse estilo médio, que é o que o jornalismo utiliza e por isso, atingem em cheio a classe média. Nem rebuscado, nem superficial, médio.

Ótimo conto, cara! E mais uma vez, não deixe de ler Oficina de Escritores.

Abraços!

Fernando Ramos disse...

Ah, quase me esqueci: mora em São Paulo, certo? Conhece a Livraria Cultura? Se conhece entre em www.contosdacultura.com.br

A Livriaria está fazendo um concurso de contos. Os melhores vão pra Revista da Cultura, publicação da livraria com distribuição gratuita , posteriormente, as melhores da revista, vão pra um livro, sem pagamentos de direito autoral pros vencedores, é claro.

Se conhecer, dá uma olhada. E entre no site. Tem muita gente boa postando contos por lá. Eu sou exceção. Hehehehe.

Abraços!

gilgomex disse...

e um dia ela se reblou contra tudo e contra todos e passou a se chamar:
J.K.Rowling, escreveu sobre um bruxinho viadinho e pediu pra editora apenas uma porcentagem nas vendas, mesmo que fosse um fracasso, ninguém perderia tanto dinheiro...
Pelo menos continuou sendo uma história simplesinha...
heuehehueheee
nada a ver... viajei.

Dani Vieira disse...

Ouvir aos outros, as vezes, não é bom. Perde a tal da essência e então fica mecânico, sintético. Compliçao é coisa de quem quer impressionar, mas o objetivo de um escritor, um verdadeiro escritor, deveria ser outro...

Adorei seu blog, adorei esse texto!

Stephanie disse...

Tyler,

depois de uma passagem rápida pelo mundo das editoras, morri de rir com esse conto - muitas vezes a coisa é assim mesmo, eu li muita bobagem, mas do pouco interessante que vi, sempre vinha enfeitado, querendo mostrar sofisticação, altas referências, um saco

simplicidade é fundamental. e o teu conto é ótimo =)

beijo

V.H. de A. Barbosa disse...

Isso soa autobiográfico.

Pâmela disse...

Coitaadiiiiiiiinha! Os livros mais complexos são sempre os melhores. Quer dizer, quando fazem sentido.

taiscarla disse...

ai, ai.

Nadia disse...

Vou fazer seu natal um pouco mais feliz.
Por motivos pessoais, e que não são da sua conta, eu acabei por desenvolver uma relação muito íntima com esse seu texto.
Gostaria, portanto, de comprá-lo.

Tah, mais simples né?
Vende ele pra mim pela mísera quantia de 2 reais (é, eu gostei mesmo).