quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Sozinhez

Para a mariana do céu,

Laura deitou com seus cabelos louros no sofá de um lugar só, com as pernas encolhidas. Tinha os olhos vermelhos, e só uma ou duas lágrimas insistiam em molhar suas bochechas. Vestia um jeans tão velho quanto o motivo de seu choro e um suéter verde, com as barras das mangas molhadas de tristeza. Sentia falta de Rob, de suas listas, de suas músicas, de seus discos e de sua insegurança. Decidiu. Naquele sábado acordaria cedo e o procuraria na loja, que estaria lotada, mas ele largaria o que estivesse fazendo para falar com ela e cuidar dela e fazê-la rir, como sempre fez.

Michael acendeu um charuto e olhou a fumaça subir. Estava afundado na poltrona de couro de seu escritório, tão silencioso que quase podia ouvir seus pensamentos. Todos haviam ido embora. Seu pai, Sonny, sua mãe, Fredo, até mesmo Kay e as crianças. A sala ao lado estava cheia de homens que, a um comando seu, tomariam o mundo de assalto e o nomeariam imperador mundial. Já o era. Tinha tudo, não tinha nada. Pensava muito, sabia que passos devia dar, e que passos seus inimigos dariam; estava pelo menos três anos à frente de todos. Mas naquela noite não tinha ninguém que lhe falasse algo novo. Na manhã seguinte, junto com o sol, visitaria o túmulo dos pais, disfarçando um pedido desesperado de ajuda.

Charlie estava rodeada de pessoas e não parava de falar por um minuto sequer. Eram todos tão bem sucedidos, tão sortudos e tão bonitos quanto ela. Bebia o vinho tinto, que descia pela garganta já amortecida e caía em seu estômago fraco, castigado, sua cabeça girava, sua voz hesitava, seus olhos ficavam úmidos e já não sabia o que faria dali em diante. Pensava no que havia deixado para trás; não para trás, mas longe. Pensava que talvez não voltasse, mas que faria o possível para que estivessem juntos, para sempre. Não pensava mais, porque pensar não era bom; pensar impedia-a de viver aquilo e de aproveitar cada segundo e de se entregar completamente. Não pensou mais. Mas na manhã seguinte ligaria, ou mandaria um e-mail, ou qualquer coisa parecida.

Chris jogou a cabeça para trás e fixou os olhos no teto por alguns segundos antes de fechá-los. Estava cansado, queria desmaiar. Não conseguia dormir, transbordava cafeína; tentou resolver com cervejas, bebeu uma, duas, seis, nada. Nada fazia efeito algum. Passou por três livros, dois filmes, cinco discos inteiros e uns quatro pela metade. Nada. Pensava demais e pensar nunca ajudava em nada. Pensava em muita gente e nunca em si mesmo. Precisava aprender a pensar em si mesmo. Comeu uma pizza inteira, tomou outro café, escreveu duas cartas, queimou as duas, escreveu mais uma, queimou também. Tentou dormir de todas as formas naturais, nada. Na manhã seguinte estaria parecendo um zumbi, com olheiras do tamanho de duas laranjas, e decidiu que escreveria um romance, ou um conto, ou uma poesia, uma pequena, um haicai, uma frase de efeito. Não escreveria nada.

Tyler Bazz

18 comentários:

mariana disse...

tyler! e esses nomes todos! [o último]. chorei, até. não sei, por entender. não sei. muito bonito, muito mesmo =)

Marcello disse...

Olha! Acho que eu conheço o Chris... né, Tyler?? :D

Marina disse...

A solidão é tão triste que chega a ser linda... Engraçado como a tristeza pode ser indescritivelmente bonita, quando escrita com as palavras certas. Bonita para se olhar de longe, bem longe de mim. Nesse caso, só nesse caso, eu prefiro a ausência de poesia na minha vida.

Abraço, Tyler. Belo texto!

Lady Dari disse...

a bendita solidao eh descritivel, mas as formas com que ela chega na vida das pessoas e vai correndo lentamente ou naum, saum varias.
a solidao tem a v com saudade neh... a falta de algo, de alguem. eh engraçado, pq ela pod durar alguns segundos e fazer brotar lagrimas ou pernamecer fazendo doer por dias...
__
para o Chris ( eh auto de novo? =P) recomendo algumas gotas de rivotril
=/

Lady Dari disse...

corroendo*

mariana disse...

tava aqui pensando. acho que a gente existe mais quando tá sozinho. por isso a sozinhez é tão boa/ruim.

MaxReinert disse...

Sou obrigado a concordar com a Marina... certas coisas só são bonitas na escrita....

"Nesse caso, só nesse caso, eu prefiro a ausência de poesia na minha vida." [2]

' bell... disse...

Acho que acabou escrevendo...

às vezes o jeito como nós tratamos a nossa solidão me lembra Nietzsche, mas não gosto dele... ele tinha certezas demais pra mim... quando fico assim, catalogo meus discos de vinil... até hoje não cheguei nem na metade, e ontem fiquei triste: alguém fez um furo bem em cima da faixa Hurricane de um deles...

ah é... prazer... bell
=)

Pâmela disse...

Tenho a leve(íssima) impressão de que esses nomes, só os nomes, não foram criação sua.
Acho que estou me sentindo sozinha.

Não Somos Apenas Rostinhos Bonitos disse...

Pura realidade!

Carioca disse...

a solidao eh onde nos encontramos! mto bom post.

--
http://raciocinioquebrado.blogspot.com/

Cara Pálida disse...

Quando estamos sozinhos, conseguimos colocar os pensamentos em ordem, raciocinar melhor!

gilgomex disse...

Sei que é um texto com vários personagens e tals... Ma snão poderia deixar de destacar essa homenagem descarada ao nosso amigo e ídolo blogueiro:

"Sentia falta de Rob, de suas listas"

Rob? Listas?
Nem adianta disfarçar... rs.

taiscarla disse...

me sinto tão sozinha agr =P

muito bom , Tyler bAzz!!!

V.H. de A. Barbosa disse...

Lembra o cubismo de Drummond.

Elis disse...

Oi.
Às vezez leio seu blog e nunca comento. Nada como a falta do que dizer... =P
Mas esse post ficou tããão... real, eu acho.
Pobre Chris... eu sei como Chris se sente. "Queimar" cartas e ter olheiras do tamanho de laranjas são clássicos... E não escrever também, claro.

Bom, é isso. Até qualquer hora.

Gabriel Leite disse...

Um belo retrato da solidão!

Fernando Ramos disse...

Fala, Tyler!

Além de solidão, comodismo também, certo? Não?

Lembrei de Semana que vem, da Pitty.

Abraços!