sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Louis Fernán - Rótulos

Lou estava apoiado na janela do apartamento, olhando a rua. A tv ligada, sem som, uma caneca de café nas mãos. A tarde estava nublada, não chovia; o detetive se distraía com uma brincadeira inventada por ele na adolescência: observava as pessoas e dava um rótulo a elas. Não podia ser por um tempo muito longo, perdia a graça. Tinha que ser rápido. Ficava ali na janela e, enquanto alguém passava pela calçada, atravessava a rua ou esperava o sinal abrir, Louis escolhia a plaquinha: “viciado em trabalho”, “trai o marido”, “irritantemente feliz”, entre outras.

Ele olhava uma garota de cabelos pretos, blusa verde, saia indiana, vinte e poucos anos com cara de dezesseis: “metida a hippie”, pensou Lou – foi quando bateram na porta. O detetive suspirou, com cara de desagrado, bebeu um longo gole de café. Foi até a escrivaninha, perto da entrada, e deixou a caneca. Mais uma batida na porta. “Já vai!”, gritou, impaciente, e abriu: “Infelizmente, o mundo não vai acabar hoje. Pra quê tanta pressa?”

“Ela está me traindo.” – A raiva que o garoto tentou imprimir à própria voz não conseguiu disfarçar a formalidade ridícula, construída durante anos e anos de pura chatice. Sim, um garoto: dezenove ou vinte anos, cabelos curtos, negros e finos. Olhos também escuros. Vestia uma camiseta vermelha e calça jeans. Pouco antes da patricinha hipponga, Lou viu-o passar pela rua com cara e ar de derrota. O detetive lembrou-se da plaquinha do rapaz – “precisa de amigos” –, segurou o riso e tentou guiar a situação:

“Senta aí e me explica a história direito.”

“Ela me traiu! Eu vi tudo e¬¬-”

“Café?”

“Não, porra! Dá pra prestar atenção?”

“É... a decência da sua namorada por acaso tem alguma relação com o tempo que você leva pra me contar a história?! Eu cobro por serviço, não por hora. Pode ficar calmo.”

“Não enche, cara! Falando nisso, quanto vai ficar?”

“Eu ainda não sei o que você quer.”

“Tá bom... é o seguinte.” – agora o garoto tentava, com a formalidade, reprimir as lágrimas que enchiam seus olhos – “eu vi tudo. Eles estavam num bar, se agarrando. E aquele filho da... puta se dizia meu amigo! Vivia falando comigo, me chamava pra festas, dizia que eu era legal... Na hora eu não sabia muito o que fazer, só lembrei de alguns dos meus amigos de verdade. Um dizia que já sabia; outro, que eu devia perdoar; outro ainda, que eu devia é me vingar. Até pensei nisso, me aproveitar de alguém que ele gosta, mas não sei. Comecei a passar mal, liguei pra minha mãe e fui embora.”

Louis ficou se perguntando se não faltava nada naquela história. Mesmo com tanta experiência, aquele era um caso novo para ele.

“E o que você quer que eu faça exatamente?”, Lou perguntou.

“Eu quero saber por que ela faz isso! Desde quando, onde, por que com ele... tudo!”

Lou tentou se controlar, mas fazia já um tempo que não surgia um cliente que merecesse tanta ironia e ridicularização. O garoto praticamente pedia por isso.

“Deixa eu ver se eu entendi” – o detetive brincava com um lápis entre os dedos – “ela te trai?”

“Sim!”

“Com seu amigo?”

“Isso.”

“E você sabe?”

“É.”

“E em vez de conversar com os dois, como pessoas civilizadas, ou simplesmente dar um pé nela, você prefere contratar um detetive pra descobrir os detalhes?” – Lou sorriu, não pôde evitar.

“Ah, cara! Me deixa! Eu vou pagar, não vou? Então faz o que eu quero.”

O detetive respirou fundo. “Ok. Eu pego o caso.” – Louis Fernán, um cara que gosta do que faz. – “Você tem alguma foto dela, algo que você possa deixar comigo?”, perguntou.

O garoto tirou da carteira uma foto colorida, impressa por computador; esticou o braço, tentando se convencer a fazer aquilo, e entregou a fotografia. O papel já tinha sido amassado uma vez, Lou reparou, havia também uma gota seca num canto da foto. Algum líquido que caiu ali em algum momento, não importa. A foto era normal, a moça não. Tinha a pele morena, um pouco de nascença e um pouco de sol, cabelos bastante escuros, lisos, ou melhor, alisados. O sorriso na foto parecia um pouco forçado, mas o detetive não se deteve muito ao rosto, que não era mesmo dos mais bonitos. O que ele gostou mesmo foi do corpo da garota. Ela era muito gostosa: uns peitos médios, realçados pelo decote e o formato bem escolhido do soutien, pernas firmes, um pouco grossas demais, e uma bunda grande, redonda, paixão nacional. Lou deixou escapar um pequeno sorriso no canto da boca, percebido pelo namorado traído.

“Tá rindo do quê, babaca?”

“Nada demais. Mas já não tiro a razão do seu amigo. É um mulherão, hein...”

“Ah cara! Cala essa boca!”

“Calma, garoto. Era só um elogio...”

“Tá bom, vai. Eu vou embora. Faz aí teu serviço” – Lou pegou mais algumas informações sobre a garota e liberou o menino, mesmo parecendo que ele não tinha muita certeza do que acontecia na vida da namorada.

***

Os dias passavam e Lou achava o caso cada vez mais simples, e estranho. Em nenhum momento ele viu o casal junto. Aliás, não viu o garoto em nenhum dos lugares que ele disse freqüentar. Não que isso tenha impedido que ela os freqüentasse; a menina estava em todas: festas, reuniões de amigos, danceterias, bares... sempre com um grupo de gente conhecida em volta, sempre dançando muito, sempre rindo muito, sempre feliz. E nunca, nunca mesmo, Lou teve a sensação de que a ausência do namorado surtisse qualquer efeito nela.

O detetive já estava cansado de toda aquela mesmice quando chamou o garoto em seu escritório. Iria encerrar o caso, esclarecendo as coisas, e até daria algum desconto se o rapaz chorasse muito. Louis tomava um café e fazia palavras cruzadas quando bateram à porta; abriu, cumprimentou, “senta aí...”

“E então, descobriu o quê?”, o pobre menino tentava, ridícula e inutilmente, esconder a ansiedade, que deixava inquietas suas pernas e mãos.

“Garoto, devo confessar que há tempos não tinha em minhas mãos caso tão simples; diria, até, fácil”, o detetive havia treinado o falar formal durante toda a semana, só para se divertir mais um pouco com o clientezinho. – “Observei a moça cuja foto foi-me entregue e constatei:” ¬– cansou-se daquilo – “a menina não liga pra você, garoto. Se você não correr atrás dela, ela não vai nem lembrar que você existe. Minha opinião de detetive é que ela vive muito bem a vida dela sem você. Minha opinião de homem, mais velho, experiente, é que você devia terminar com ela, partir pra outra...”

“Terminar, cara?! Você tá louco?”, os olhos do menino, turvos de lágrimas, mostraram um brilho estranho, misto de ódio, paixão, surpresa e nervosismo.

“Isso mesmo, ué. Ela já até te traiu, por que ficar com alguém que não gosta de você?” – Louis Fernán, detetive particular e psicólogo sentimental.

“Eu não vou ficar com ela. Isso porque eu não estou com ela, senhor Louis espertão!” – Lou se ajeitou na cadeira, intrigadíssimo com o que tinha acabado de ouvir. O garoto continuou, já chorando: “Eu terminei com ela faz seis meses. Eu tinha certeza que ia viver bem sem ela, e que ela ia sentir muito minha falta. Mas aí o tempo foi passando e ela não voltou e continuou feliz e roubou meus amigos... eu acho que eu só queria saber mesmo se ela ainda gostava de mim.”

Lou tinha no rosto uma expressão de enorme espanto. Bebeu um longo gole de café e se levantou. O menino enxugava as lágrimas, que não paravam de correr naquele rosto deprimente, ele precisava mesmo de ajuda, profissional. O detetive deu a volta na mesa, com a caneca na mão esquerda, parou atrás do garoto e pousou a outra mão sobre o ombro dele, dando-lhe uns tapinhas leves:

“O pagamento é em dinheiro.”


Tyler Bazz

17 comentários:

Pâmela disse...

Louis Fernán agora virou marcador !
Isso é sinal de que ele é um novo personagem fixo como a Marcela?
Engraçado que o primeiro post que eu li aqui foi o Louis Fernán Medicina.
Tava bom. Esse deu dó do cara.

Pâmela disse...

Hahaha, não espero que sejam constantes.
Achei muito mágico o seu negócio do twitter, queria ter um, mais nem no twitter eu consigo me cadastrar, imagine pôr um desse no meu blog.
Essa sua crônica é daquelas que humilham os outros blogs. Você tinha que escrever um livro de crônicas um dia ou alguma coisa do tipo, sério.

' bell disse...

Gostei do Louis Fernán meu caro Tyler... coincidentemente eu ando lendo minha coleção do Sherlock Holmes... pela numseiqueésima vez...

uhm, e quanto a dar dó dor cara... não, não... só faz parte.

abraços...
;*

Lady Dari disse...

gostei dele
\o/

Kacau disse...

aindei dando uma olhada no seu blog tem certeza que não é escritor, pq se não é esta de bobeira, textos profundos, instigativos, puxa blog de bater ponto todo dia. Parabéns

http://messnatural.blogspot.com/

MaxReinert disse...

Very good, Mr. Tyler!!!
Personagens sacanas sempre dão bons textos!

Sam Pereira disse...

Este Louis Fernán é uma figura. O jogo das plaquinhas foi uma sacada genial.

Beijos

Larissa Bohnenberger disse...

Excelente!
Adoro essas histórias em que há emoção crescente na narrativa, para em seguida ser cortada com um tapa na cara, como no final!
Bjs!

Gabriel Leite disse...

Mais uma vez o final me surpreendeu. Jurei que o Louis ia ter um caso com a dita.

Ótimo profissional. Ambos

Barbarella disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Barbarella disse...

Post assim me agrada, e como agrada!
Além de mostrar seu talento nesse gênero, não errr ...... ah, você sabe onde quero chegar...rsrs

Tenho orgulho de fazer parte do seu rol de amigas viu. Vejo um futuro promitente:

Escritor Tyler Bazz.. uhuuuuuuuuuu

16/11/08 08:21

Fee disse...

Muito muito bom!

mas é um tanto quanto triste.

beijo!

Marcello disse...

“Eu não vou ficar com ela. Isso porque eu não estou com ela, senhor Louis espertão!”


Eu deito e rolo lendo esse trecho HUAHUAHAHUAHUHAUHAUHAHAHHAUHAU

Marcio Sarge disse...

Muito bom mesmo. Mas esse detetive deveria ter ficado com o pagamento e com a garota, pela descrição valia a pena.

mariana disse...

[achoquecomissoeuentendiaquelediaseu=X]

taiscarla disse...

Louis Fernán, detetive particular e psicólogo sentimental.

esse eh dos meus...

mentira ¬¬

mas gostei dele =D

Anônimo disse...

O incrível de seu blog é nunca saber quando as histórias são reais.