sexta-feira, 31 de outubro de 2008

As Várias Faces da Morte

Ia andando pela rua, passava bem próximo a um portão alto e verde, com espaços de meio palmo entre as grades, quando se assustou com os fortes latidos de um cão enorme que estava no quintal; deu um salto para trás, tropeçando num pedaço de calçada, e saiu cambaleando para a rua, onde a motocicleta o atingiu. O carro do resgate chegou em cinco minutos, e em menos de quarto de hora adentrava o hospital.

Estava deitado numa nuvem, em meio a tantas outras num céu. Então a temperatura do ar caiu, o céu virou uma sala mal-iluminada e a nuvem tornou-se um divã cor de vinho. Sentado à sua frente, numa poltrona reclinável de couro, não reclinada, um vulto de pernas longas e mãos finas, com o rosto encoberto pela aba de um chapéu negro bem velho. “Nunca ninguém teve tanta sorte”, ouviu o vulto dizer.

“O quê?”, não tinha medo, sabia estar sonhando, mas queria entender seu sonho.

“Explico.” – o vulto falava com um sotaque estranho – “Eu sou a Morte, e você ia morrer. Era eu o cachorro no quintal, a pedra no chão, e a moto na rua. E você, ninguém sabe como, escapou a todas as minhas investidas.”

“E agora você veio me buscar. É isso?”

“Não, não. Não funciona assim como vocês pensam. Meu trabalho não é buscar ninguém, mas sim fazer com que as pessoas morram. Explico: o cachorro te daria um grande, enorme susto, uma vez que você tem fobia deles; na pior das hipóteses você desmaiaria e sua cabeça bateria então na quina da calçada que soltei; mas você continuou de pé e, num ato de desespero, te atropelei com a moto. E você ainda está vivo.” – a Morte suspirou.

“Então você veio pra causar minha morte no sonho. É isso?!”

O sotaque estranho da Morte era agora outro. “Não, não. Não é assim que as coisas são. Cada pessoa tem seu dia de morrer, e aí eu vou e faço meu trabalho. Se faço direito, ótimo, encomendem as flores – como foi com a Princesa em Paris. Se eu falho – como quando atirei no Papa – a pessoa ganha mais tempo, e só fico sabendo quando posso tentar de novo no dia em que o nome reaparece na agenda.”

“Ok. Então o que você quer aqui?”

“Só achei que se você sobreviveu três vezes, deve ser algum tipo de sinal pra mim. Talvez a gente devesse ser amigos ou algo do tipo.”

“Você está é louca! Eu, amigo da morte, hahaha. E já que esse sonho aqui é meu, sai!”

Acordou, abriu devagar os olhos e viu, sentada ao lado da cama do hospital, a enfermeira mais linda que já fizeram. Ela sorriu, fazendo-o esquecer todas as mulheres de sorrisos lindos. E antes que ele pudesse perguntar o que ela fazia ali, ouviu uma voz doce dizer:

“Você pode escapar de morrer, mas não vai escapar da Morte.”

Surtou por alguns minutos, gritou, debateu-se, mas acabou se acalmando e começou a pensar e a entender o que estava acontecendo. Na verdade, ser amigo da Morte não lhe parecia uma idéia tão ruim; poderia, inclusive, tirar algum proveito disso, quem sabe? Começaram a conversar e perceber interesses e gostos em comum, e antes que ele percebesse, eram amigos.

A Morte passou a freqüentar sua casa, e com o tempo ambos notaram que ele tinha grande curiosidade sobre os feitos de sua amiga. Queria detalhes de mortes de famosos, já havia perguntado sobre parentes, amigos de infância; numa dessas tardes de perguntas acabou até descobrindo que sua primeira namorada, que ele já não via há mais de trinta anos, tinha morrido, jovenzinha jovenzinha.

“Me conta como é que foi com o Jim Morrison?”, perguntava às vezes. Ou “a Joana D’Arc deu muito trabalho?” Uma vez se lembrou de uma que ele tinha que saber e quase perdeu a amizade da Morte, que se doeu toda.

“E o Elvis? Morreu ou não morreu, afinal?”

“Mas é claro que morreu! Vocês humanos começam com uma gracinha e acabam todos acreditando. Idiotas! Alguma vez eu te dei motivo pra desconfiar de mim? Dei? Alguma vez eu falei algo pra me gabar ou coisa do tipo? Não! Se eu digo que o Elvis morreu, é porque eu fui lá e fiz morrer. E não foi nem muito difícil, pra falar a verdade.” – Mas a Morte logo se acalmou e eles continuaram fortalecendo a amizade.

Num dia de tédio, certa vez, ele pediu para a Morte se podia ver a morte de alguém. Ela relutou um pouco, mas o levou junto. E foi assim que começou uma das grandes diversões dos dois: ele passou, sempre que podia, a estar presente para ver o trabalho da amiga. Era ele o pescador na beira do rio, próximo à ponte de onde alguém “se jogou”; ou o animal que estava na beira da estrada quando aquele terrível acidente de carro “aconteceu”; ou ainda os óculos do “assassino” que nunca foi encontrado após matar certo político famoso.

O telefone tocava, ou aparecia um peixe novo em seu aquário, e era a Morte fazendo o convite:

“Quer ver um enfarte dentro de um avião?”

“Demorou, deixa só eu vestir uma roupa de vôo.”

E no caminho sempre conversavam sobre outras mortes:

“Falando em avião... e o 11 de setembro, ou aqueles atentados em Madri? Tinha mesmo que morrer tanta gente no mesmo dia?”

“Não, não. Nem toda morte tem a ver comigo ou com a chefia. O mérito dessas mortes, e da maioria das guerras, por exemplo, é todo de vocês.”

“Humm... o Dia em que o Rock morreu então foi coincidência mesmo?”

“Não, esse não.”

“Eles tinha que morrer no mesmo dia então???”

“Não. Tinha uma diferencinha de meses. Eu só mexi uns pauzinhos e aproveitei o vôo pra deixar minha vida mais fácil...”

E ele então se tornava um passageiro do avião e via de perto um ataque do coração. Assistiu a inúmeras mortes, de todas as formas possíveis. Tornou-se um perito nos últimos momentos de vida das pessoas e chegou até a lançar livro sobre isso. “As faces da Morte” fez um sucesso estrondoso, tanto que a seqüência, “Mais faces da Morte”, é aguardada por crítica e público.

Um dia o telefone tocou e ele atendeu, era a Morte:

“Tenho trabalho, quer ver?”

“Tô dentro, qual a ocasião?”

“Vai ser em uma casa de espelhos, sabe?”

“Sei sim, me pega em dez minutos.”

Aquela idéia ele adorou. Uma casa de espelhos seria um trunfo no novo livro; a mesma morte seria vista por ele de vários ângulos diferentes; cada face, cada olhar, cada movimento ficaria eternamente gravado em sua mente. Era perfeito!

Chegaram ao lugar, uma casa toda feita de espelhos e que era visitada por centenas de pessoas diariamente, um dos principais pontos turísticos da cidade. Entraram e a Morte indicou uma sala, “espera ali”, ele foi. Enquanto aguardava, pensava quem seria o desafortunado a entrar, se a morte seria lenta, rápida, dolorida, incomum; mal podia agüentar tanta ansiedade. Dez minutos depois ninguém apareceu e ele começou a cansar de ver a si mesmo por todas as partes. Deu um passo em direção à porta, que na mesma hora fechou-se, e o gás começou a sair pela saída de ar-condicionado.

O corpo só foi encontrado dias depois.

Tyler Bazz

21 comentários:

paulonando disse...

Uauhhh!!!

Marcio Sarge disse...

É o que dá ficar brincando com a Morte rs.

Barbarella disse...

"Você pode escapar de morrer, mas não vai escapar da Morte.”

Medo!

Mas que morte hein..

Yana disse...

Quando a morte ligou pra ele, já ficou meio claro que ele iria morrer, mas o texto tá MUITO bom. Me lembrou de A Menina Que Roubava Livros, o melhor livro de todos.

Lady Dari disse...

idem yana
lembrei do livro tbm!

Pâmela disse...

Seria o Tyler um amigo da Morte? Aguardo pelo dia em que você lançará um livro de crônicas.

Fernando Gomes disse...

texto magnífico rapaz..
gostei das descrições e das frases de efeito.

tem talento..

Deisinha Rocha disse...

A morte é mentirosa! O Elvis não morreu!



>>Medo de vc, Tyler...

Picolé de Chuchu disse...

Morte...silenciosa,implacável e inevitável!!


http://wwwpicoledechuchu.blogspot.com

Passa là!!

Thadeu Wilmer disse...

Muito bom.

tatiana disse...

Quando li "casa de espelhos" pensei: ai!! Daqueles "ais" em que se leva uma das mão à cabeça.
Divertido!

V.H. de A. Barbosa disse...

pára* tudo: o rock morreu?

*esse acento está na agenda da Morte.

Stephanie disse...

essa da casa de espelhos foi ótima! desde que ele começou a ver a morte dos outros me perguntei se ele coseguiria ver a própria quando chegasse a vez de novo, adorei o desfecho =)

tem horas em que gosto dos textos e também não sei o que dizer - esse conto foi muito bom.

beijo

Gabriel Leite disse...

Definitivamente o mais cruel de todos!
Quem gostaria de ver a morte alheia? É uma coisa tão sádica, tão maldosa...

Acho que você tem uma face da morte reprimida em você, Tyler!

MaxReinert disse...

hummmmm...muito bom!
Eu gosto de pensar nisso... ser amigo da morte... deixar com qie ela se torne algo comum em minha vida!
Não quereo um final melodramático....
Você pode dar uma faladinha com ela pra mim sobre isso???

Dedinhos Nervosos disse...

Isso é que dá, andar em má companhia! ehehhe
Cara, muito bom mesmo. Arrasou.
Bjos.

Ps. Acho que vai gostar do meu último post.

Marina disse...

Imaginei que ele fosse morrer no final. Mas... Por que espelhos? Porque ele gostava de assistir a mortes? Por acaso ela achou que devia isso a ele? Assistir à própria morte? Então, como um último favor de amiga, ela providenciou uma última diversão para ele... Talvez ela tenha uma idéia distorcida de amizade. Ou de diversão.

Adorei o texto, Tyler. Muito bom mesmo. Abraço.

Fernando Ramos disse...

Justificativa de alguém que não leu só o primeiro post para receber um comentário no blogue:

Comecei a ler o primeiro e segundo parágrafos. Mais tarde termino. :)

Bruno disse...

Uau.

Uau.

Homenzinho de Barba Mal feita disse...

Ele se livrou da morte, mas não de morrer...



http://hdebarbamalfeita.blogspot.com/

Fernando Ramos disse...

Achei uma releitura daquilo que sempre falam que quando a pessoa tem que partir não dá pra adiar. Verdade. Mas nem por isso você vai facilitar as coisas pra Dona Morte, não émesmo?

Tyler, gostei mesmo. Mas achei que se tivesse terminado ali, na pergunta sobre se Elvis morreu, pra mim teria ficado perfeito!

Abraços!