sábado, 30 de agosto de 2008

Louis Fernán - Medicina

"Velhos são inofensivos." Era assim que pensava o detetive Louis Fernán quando levou a mãe, de quase oitenta anos, para viver numa dessas vilas para aposentados, uma espécie de asilo de luxo, onde viviam cada um em sua casa, com enfermaria próxima, opções de lazer, etc. Qualidade de vida, ar puro; nada poderia lhe fazer mal.

Naquela fria noite de sexta, enquanto tomava um capuccino em seu apartamento-escritório, Lou não imaginava que antes mesmo das onze horas duas coisas comuns em sua vida mudariam. A primeira, aquela idéia sobre os velhos; a segunda, o dia de visitar a casa da mãe. A cada três ou quatro domingos, conforme seu trabalho permitisse, Lou fazia a viagem de uma hora de São Paulo até o asilo da mãe e passava o dia com ela, agradando também umas outras cinco senhoras, que já não tinham por perto filhos que lhes levassem coisas da cidade grande. O caráter da mãe e essa bondade gratuita fizeram com que Louis tivesse ótima reputação na pequena cidade.

Era pouco mais de nove da noite e o detetive tentava, com pouco sucesso, manter os olhos abertos na frente da tv, quando o telefone tocou: "Lou...", a voz afobada era de seu irmão, Miguel, que viajava o país vendendo jóias e quase nunca aparecia, exceto nas festas de fim de ano; ou quando precisava de algum favor. "Você precisa vir pra casa da mamãe..." - Louis bufou que visitaria os dois no dia seguinte, ou no domingo, mas antes que pudesse terminar a frase, foi interrompido pela voz do irmão, gritando num misto de pranto e desespero: "Vem logo, cara! Acho que ela morreu!" - O detetive vestiu, apressado, o casaco, colocou o impecável chapéu na cabeça, acendeu um cigarro enquanto descia as escadas e tomou a estrada, sem conseguir pensar.

A viagem durou um pouco menos que o normal. Louis pisou fundo, mas não ultrapassou o limite de velocidade. Quando chegou, o irmão abriu a porta ainda enquanto o detetive estacionava. Ele entrou e viu Miguel sentado na sala; já não chorava, mas tinha os olhos muito vermelhos. Lou respirou fundo, tirando o casaco e o chapéu, e perguntou, com uma baixa e pesada:

"Ela tá no quarto?"

Miguel respondeu com a cabeça e continuou, antes que o irmão entrasse no cômodo: "Vai com calma, cara. Eu ainda não tive coragem de voltar lá."

Louis arqueou as sobrancelhas, temendo o que iria ver. Não era fácil chocar Miguel. Mesmo depois de vinte anos investigando crimes de toda espécie, o detetive não tinha nem metade da frieza daquele vendedor perante certas cenas e situações.

Quando entrou no quarto, Lou sentiu o sangue ferver nas veias, depois congelar; as pernas ficaram moles, e os olhos marejaram. Talvez pelo estado do irmão, o detetive conseguiu se conter e seu semblante manteve a mesma dureza que tinha quando chegou à cidadezinha. O corpo de sua mãe, sempre branco como neve, jazia nu na cama; as pernas abertas, as mãos amarradas à cabeceira com uma camisola de seda, os olhos vendados e a cabeça tombada para a esquerda.

Louis voltou para a sala e abraçou o irmão, que chorava novamente. Com a cabeça de Miguel encostada em seu peito, ele respirou fundo e prometeu, ao irmão e a si mesmo: "Eu vou pegar quem fez isso. Ah, se vou..."

Os irmãos decidiram não envolver a polícia no caso. Vestiram o corpo da mãe com a camisola, cuidaram para que não ficassem marcas nos pulsos ou ao redor dos olhos, e ligaram para a enfermaria local. A viúva Fernán morreu de velhice, segundo seus dois filhos, e tudo que eles queriam era um enterro bonito e pacífico para sua velha mãe, ali mesmo no cemitério da pousada.

Quando o sábado amanheceu, a notícia se espalhou rapidamente e todos os moradores foram prestar suas homenagens. As senhoras, com seus véus negros e seu instinto materno, abraçavam Louis e Miguel carinhosamente, tentando confortá-los com palavras. "Sua mãe era uma ótima pessoa", "Ela está com os anjos agora". Os homens apertavam-lhes as mãos, tentando transmitir o respeito e a experiência de quem já fez isso uma centena de vezes. Os dois irmãos recebiam tudo com rostos serenos e olhares abatidos.

Após o enterro, os Fernán ofereceram um almoço aos moradores que tão carinhosamente acolheram sua mãe. A idéia foi de Miguel, condenada pelo irmão. "Alguém daqui fez aquilo com a nossa mãe, e você quer dar almocinho pros velhinhos!?", Lou ironizou.

"Isso mesmo" - respondeu o irmão - "todos aqui, juntos, sob os nossos olhos, conversando sobre o assunto do dia, nosso único interesse aqui: a morte de Maria Fernán!" - Os olhos de Louis denunciavam seu espanto. Alguns anos de trabalho na estrada deixaram o irmão muito mais esperto do que nos tempos de escola. Esse era o tipo de coisa que ele, Lou, devia pensar, afinal quem é que resolvia crimes ali? Enfim, o almoço foi servido. E durante a reunião, aconteceu algo que provou a qualidade da idéia de Miguel.

Antonia de Carvalho, uma senhora de noventa anos, mas que aparentava ter uns duzentos, vizinha da senhora Fernán, se aproximou dos dois irmãos, certificou-se de que não havia ninguém perto nem atento o bastante para ouvir, e sussurrou: "Escutem, meninos, eu vi o João das Neves saindo da casa da sua mãe ontem à noite, meia hora antes de vocês chegarem." - Ela se aproximou mais ainda dos dois - "Acho que ele pode ter feito algo com ela."

"A senhora tem certeza?", perguntou Louis, enquanto Miguel sentia o sangue todo subir-lhe à cabeça.

"Eu não brincaria com isso", a velha respondeu, séria, e saiu.

Foi difícil controlar Miguel, ele queria pegar o velho ali mesmo. Mas Lou explicou que seria melhor falar com ele depois, só os três, sem aquela velharada como testemunha. O vendedor concordou, mas achou melhor sair dali e foi para a casa da mãe, onde dormiu no sofá da sala. Louis ficou até o fim do almoço, só voltou para casa quando o último morador se despediu. Sua cabeça doía como se fosse explodir.

No meio da tarde, quando os dois irmãos pensavam no que fazer, alguém bateu à porta. O detetive abriu e demorou alguns segundos para entender o que o tal João fazia ali. "Posso entrar? Preciso ter uma conversa com vocês", disse o velho, com o rosto bastante abatido.

"E como precisa...", Louis respondeu, dando passagem ao barbeiro, que entrou como se já conhecesse a casa. Quando viu o João das Neves na sala, esticando a mão para cumprimentá-lo, Miguel atacou-o num acesso de fúria; mas o velho, que era muito mais forte e ágil do que aparentavam seus sessenta e cinco anos, desviou do soco e segurou o braço do vendedor até que o irmão o controlasse. "Se você tem algo pra falar, que fale logo" – disse Lou, mostrando o sofá ao velho. E acrescentou para si mesmo: minha cabeça tá me matando."

"Bom, rapazes" - começou João, sentando-se - "eu estive aqui ontem à noite, antes da chegada de vocês. Não sei o que aconteceu à sua mãe, nem se vocês a encontraram do mesmo jeito que ela estava quando eu saí daqui."

"Seu pervertido desgraçado! Eu vou te mandar pro inferno!" - o grito de Miguel surtiu menos efeito em João do que em Louis, que apertou os olhos e levou as mãos às têmporas, tentando diminuir a dor.

"Fique calmo, Miguel" - continuou o velho, impassível - "o que quero contar... é que sua mãe e eu tivemos um caso nos últimos meses..."

"Agora sim a minha cabeça explode! Miguel, me arranjar um analgésico, pelo amor de Deus."

Miguel, vendo o estado do irmão, levantou-se e foi procurar algo. Mexeu no armário do banheiro, na caixa de remédios da cozinha; na sala, a conversa continuava.

"Não era um namoro. Nós não saíamos juntos nem nada. Era só sexo. A medicina me ajudou bastante, e sua mãe tinha o pique de uma adolescente, viu..."

"Miguel! Eu preciso mesmo de uma aspirina. Anda logo!"

"Ontem à noite ela me pediu pra realizar uma fantasia. Eu entrei, amarrei ela e vendei seus olhos, depois fiz sexo com ela. Então saí, como combinamos. Eu voltaria dali a meia hora, mas já sai preocupado, porque ontem sua mãe estava particularmente... fogosa, entende? Eu até estranhei um pouco..."

"Miguel!!" - Lou gritou.

Mas ele estava ocupado. Procurando no criado-mudo da mãe, encontrou dois frascos de comprimidos, um cheio e o outro com menos da metade. Em vez de remédios, havia comprimidos pequenos, de várias cores diferentes, dentro dos potinhos.

"Quer dizer que a sua perversãozinha sexual matou minha mãe..", Louis acusava o velho João.

"Lou!" - Miguel gritou, do quarto.

"Você acha mesmo que eu vou acreditar nessa historinha de fantasia, seu velhote de merda?"

"Lou!" - a voz de Miguel se aproximava pelo corredor.

"Você vai pagar pela vida da minha mãe, verme filho da puta!"

"LOU!" - Miguel já estava na sala. O detetive viu o irmão parado na porta, segurando dois frascos cheios de pílulas coloridas. Lou, que já estava de pé, deixou-se cair no sofá; João parecia surpreso; Miguel suspirou, olhando para os dois, jogou um dos frascos para o irmão e concluiu:

"A velha tomava ecstasy."


Tyler Bazz

24 comentários:

Rejane Oliveira disse...

Olha, você está muito de parabéns viu. Texto perfeito, ritmo envolvente e um suspense na medida!

Imaginei várias coisas, pensei até que eles achariam algo como viagra, mas esctasy, foi ótimo...rsrs

BJos meu coisinho...rsrs

Gabriele Fidalgo disse...

Uau!
Texto ótimo!

Seu blog é muito bom!

:*

paulonando disse...

Parabéns!
Muito bom texto, envolvente, cativante!

Marcio Sarge disse...

Uma história policial-pornô- geriatrica(original rs.)

Tinha que vir to Tyler rs.

Banana disse...

preciso criar um novo blog; PRECISO.

que faço eu?

Rejane Oliveira disse...

PRIMEIRAAAAAAAAAAAAAAA

chup....... acho que vai ficar esquisito eu falando isso né...

rsrs

Favoretto, Thais. disse...

Ainda bem que a minha mãe é virgem!

EHIEUOHIUEIOUHIOEU

Não sei o que as pessoas vêem de "cativante" numa velinha viciada e ninfomaníaca.

Mesmo sua personagem sendo mulher, idosa, e tendo morrido, eu sei que você falava de si mesmo. Não negue!

Sua cara de ninfomaníaco é notória.

Pronto, fa-lei! :)

confissoesdecomputeiro disse...

Te indiquei no Blog Day.

Tyler Bazz disse...

Pedro Pyratero disse...

meu filho..que texto grande eh esse em? se eu parar pra ler vou perder a NASCAR! intão fuime!http://


Vai ver a Nascar, mas nao vem deixar link desse blogzinho aqui.

Jonatas Fróes disse...

Cara, o texto é bom e engraçado, mas confesso que achei ele longo pra cacete hahahahaha... Não dá pra vacilar com essa velhinhas viu?! Tá loko! xD

[]'s

Musikaholic

Brunín...® disse...

Muito bom...
Esses velhinhos safados!! Hoje em dia não se pode bobear nem com eles...
hehehehee

Gilgomex™ disse...

Uia, uia...
Surprrendente final (e a cara de pau do velhinho).

Notei um espirito Maxreinertiano aí... Assustador e surpreendente.
Mas com um pouco mais de "malícia" que os textos que já li por aí... Esse é o Tyler, o velho mais jovem que eu já conheci. heuehuehuehuee

Jorge Augusto disse...

Pra mim você é um gênio!

Fee disse...

ha ha ha =)

então.. sempre que vejo uns velhinhos na rua , me ponho a pensar sobre a possível safadeza..e não mais sua inocência!

ha!


=D

beijos!

Marcello disse...

TODOS os velhinhos são sacanas... TODOS! Menos minha vó x)

Lucas disse...

Você se superou no final, fui montando todos os tipos de teorias antes de ler o fim, mas ecstasy...

Roteiro bem bolado. Flws!

Kel Sodre disse...

hahahahaha
Estava lendo seu texto e minha mãe veio falar uma coisa comigo.

- O que você está lendo?
- Um blog...
- Ah, é?... Hum... De quê, hein?
- Lê também.

Caímos na risada no final! Adoramos, eu e ela!

Larissa Bohnenberger disse...

Ahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha.

Maria disse...

Não tem pros seus textos. Começo a ler e não consigo desgrudar os olhos até chegar ao final que, claro, é sempre espetacular.

beijos!

Elo disse...

Olá Tyler Bazz, qual seu nome verdadeiro mesmo?! Rss
Bom, sobre o post achei muito interessante, a forma como você foi montando a trama, a tensão a cada linha. D+! Sem contar que o desfecho foi espetacular, não passou pela minha kbç q a velhinha usaria ecstasy!!
Você e bom, já tou fã!!

FERNANDO disse...

CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP!

BRAVO! BRAVÍSSIMO! SOBERBO!

Tyler, se me permite, este foi o conto que mais gostei do teu blogue. Se houvesse mais sangue na história, diria que andou lendo o velho e bom Rubem Fonseca. ;)

Abraços!

A. Lichtenstein disse...

meu, que saudade desses teus textos. Nunca vou conseguir escrever uma proeza dessas, não parei de rir um minuto sequer. :)

Rob Gordon disse...

Genial, Tyler. Absurdamente genial. Merecia estar em qualquer coletânea de contos - e com menção na capa. Se não é o melhor que vc escreveu, entra no Top 5, fácil.

E peço desculpas mais uma vez por começar a ler no dia da morte da velha e terminar só depois da missa de sétimo dia.

nfa a disse...

Genial a trama!
Mas a coisa não para por aí!
Será que, de fato, a senhora Fernán tomava ecstasy?
O velho J. das Neves poderia muito bem tê-la matado e dado uma arrumada no cenário...colocando o frasco na casa da velha só para se esquivar (e que local comum ein?bem no banheiro!)...talvez ele já prevesse o impulso dos dois pobres rapazes...que, levados pela emoção, ficariam impossibilitados de [raciocinarem friamente]...coisa que um indivíduo como J. das Neves faz o tempo todo...inclusive deixando-os mais atormentados ao dizer coisas imorais de sua mãe (reparem na forma lenta, tranqüila da fala de J.)
Por que os dois irmãos não se dirigiram ao Instituto Médico Legal|pediram ajuda à polícia? Se tivessem feito isso talvez soubéssemos se, de fato, havia algum sinal de entorpecência na corrente sangüínea da velha ou sei lá...[não sou médico-legista(!)]
À uma hora dessas o indivíduo já deve ter elegido outros desafios...pois esse, seguramente, não lhe deu muita emoção. Foi tudo muito fácil e previsível.
Definitivamente, Louis Fernán não tem perfil para detetive...Quem dera termos investigadores [do tipo CSI].