sábado, 26 de abril de 2008

A culpa é do Capitalismo.

Às seis da manhã o senhor Raúl se levantou; sem despertador, por ele mesmo. Foi até a cozinha, colocou o pó de café – o cheiro tomou o ambiente logo que o pote foi aberto – na cafeteira, colocou a água, ligou. Passou pela sala, chegou ao terraço. Lá fora, numa fria manhã de fim de outono, sentiu o vento bater em sua nuca, fazendo arrepiar os pêlos dos braços. Ouviu, bem ao longe, o canto de um pássaro, que ele não se lembrava qual era; e de olhos fechados respirou fundo, inalando o ar gelado da manhã, que o deixava com um triste, mas gostosa, saudade da infância, no sítio dos pais. Quando abriu os olhos, a realidade: os prédios altos, cinzentos, a cidade acordando lá embaixo. A fumaça já se misturando ao cheiro do concreto, o ar abafado vindo do metrô: o fim do século xx. O senhor Raúl conseguia enganar o olfato, não os olhos.

Acordou as duas filhas, calmo e carinhoso, antes de voltar a seu quarto, onde sua esposa já se levantava. Tomou um banho rápido, bem quente, saiu a vestiu a roupa escolhida dias antes. Do corredor, avisou a mulher, dona Silvana, que ela já podia usar o chuveiro. Enquanto ela tomava o banho, ele se munia dos documentos, relógio, loção pós-barba, tudo. Sentou-se na sala, fazendo um pouco de palavras-cruzadas – não teve vontade de ver o telejornal da manhã – até que as filhas e a esposa, quase ao mesmo tempo, deixaram seus quartos para o café da manhã.

Dona Silvana, uma mulher de uns quarenta anos – e o marido devia ser dois ou três anos mais velho – preparou uma bela refeição, uma bela mesa: sucos, pães, queijos, harmonia e sabor, parecia um comercial de margarina. Nascida e crescida naquela cidade, a viagem que iria fazer era um dos cada vez mais raros momentos com a família, os quais ela adorava. Mãe e esposa dedicada; não era nenhuma intelectual, mas estava longe de ser burra. Tirando o café, que o senhor Raúl fazia questão de preparar (ou de ligar a cafeteira) todos os dias, e as passagens, que ele fez questão de comprar, foi ela quem arrumou tudo para que o passeio acontecesse.

Na mesa da cozinha, a filha caçula deu um beijo no pai antes de sentar. Aninha, com seus 14 anos, ainda gostava de viagens com a família, embora tivesse sido convencê-la a passar um sábado sem os amigos no shopping, depois do cursinho de inglês. Ela ia por gosto, de sorriso no rosto. Mais do que ficar com os pais, Aninha queria ficar o dia todo ao lado da irmã mais velha, que ela idolatrava. A garotinha via na irmã uma menina inteligente, linda, original, independente; e nem ligava muito de viver sendo chamada de burra pela irmã, e vê-la vangloriando-se de qualquer pequeno avanço intelectual conseguido por Aninha. “Aprendeu com a irmãzona aqui”, ela dizia. Tomaram o café, com poucas conversas de café, pegaram cada um suas coisas, e saíram.

No carro, indo para a estação, o senhor Raúl sorria, feliz, mesmo tendo a cara fechada da filha mais velha no retrovisor. Os cabelos pretos, lisos, com mechas vermelhas, caíam até os ombros, passando por um rosto bonito e quase todo escondido por óculos escuros – “óculos grandes fazem você parecer rico” –, blusa preta para proteger do frio, calças jeans, botas de couro; o único brilho vinha de um par de brincos prateados, duas argolas enormes. Maria – nome escolhido pelo pai e que ela, surpreendentemente, gostava muito – queria estar em qualquer outro lugar, menos ali. Uma típica garota de 17 anos, um pouco menos típica que o normal. Lia muito, se interessava por arte, história, filosofia, essas coisas. Adorava a idéia daquela viagem: de trem, fotografando paisagens, conhecendo cidades importantes para a História do país, visitando museus, ...

Quando Maria passava um pouco do seu perfume doce, eles chegavam à estação, estranhamente vazia. A família desceu do carro e pegou as coisas – cada um levava apenas bagagem de mão. Todos esperavam na plataforma, com quinze minutos de antecedência, o trem das 8 da manhã. Aninha ficava sentada ao lado da mãe, quase dormindo. Dona Silvana fazia as palavras-cruzadas do marido, que andava de um lado para o outro, cheio daquela ansiedade gostosa que nos toma sempre que vamos realizar algo que desejamos muito. Maria sentou, leu um pouco (García Marquez), levantou, foi até a máquina e tirou uma latinha de Coca; quis fumar, mas achou melhor não.

O relógio da estação marcava oito e quinze quando o senhor Raúl tirou o casaco: já começava a transpirar, de tanta andança pela plataforma. Aninha dormia como um anjo; a mãe já tinha largado a caneta e fazia carinho na filha. Maria, um pouco longe, olhava um mapa numa parede, vendo por onde passariam e ficariam. Nos trilhos, umas pombas descansavam tranqüilas, sem o menor sinal de vibração na linha férrea. O sol aparecia tímido, a brisa continuava fria. O trem não chegava, mas era um atraso normal. A cena continuou, sem mudar muito. Uma impaciência aqui, uma ansiedade ali... Maria já tinha descido da plataforma, cruzado os trilhos, e brincava com umas flores, sob o olhar do pai.

Já passava das oito e meia quando o senhor Raúl foi ao guichê de venda de passagens, buscando alguma informação. Dona Silvana, que observava de longe, soube que algo estava errado logo que viu a reação do marido. Ele respirou fundo, tirou a carteira do bolso, secou a testa, suspirou, argumentou, guardou a carteira, voltou.

“Vamos pra casa”, ele anunciou ao aproximar-se da família.

“O quê?!”, Maria berrou, já bufando como um touro.

“Cancelaram o trem turístico porque venderam poucas passagens. Peguei o dinheiro de volta. Vamos, nós marcamos a viagem para outro dia. Capitalismo, né gente.”

Maria gostou da notícia: dormiria o dia todo, bar à noite com os amigos. Dona Silvana e Aninha pegaram as coisas e foram para o carro.

No mesmo dia o senhor Raúl levou a família para comer fora. Já fazia um bom tempo que eles não tinham o almoço de domingo num restaurante tão bom. Comeram, satisfizeram-se. A conta veio e o senhor Raúl pagou com uma cara não muito boa. Pagou em dinheiro, ficou com a carteira vazia. Dentro dela sobraram apenas as passagens para o trem turístico, que os levaria para a tão planejada viagem, e que saiu, quase lotado, no sábado, um dia antes.


Tyler Bazz

18 comentários:

Marcello disse...

Peraí... deixa eu ver se entendi o final: o Raúl ERROU o dia da viagem?


E a Maria é indie.

Eilahhh disse...

que desencontro...

García Marquez é perfeito pra ler esperando trem... Faz anos (realmente anooooooos) que eu não ando de trem, eu andei lá em Portugal...

o Raul não queria viajar... no fundo no fundo.

=***

CB-curious boy disse...

COMO ASIM 2? ACHEI QUE TIVESSE 2000 HJAHAHAHAHAH!

MAS BEM POLITICO ESSE TEXTO!

Tyler Bazz disse...

Quem ler vai ver que não tem nada de político aqui. U.U

Osmar Mesquita disse...

"A conta veio e o senhor Raúl pagou com uma cara não muito boa."

Aconteceu com meu pai esses dias hehhee

Cara adorei o texto. Você quem o fez Tyler?

Ah e sobre os comentarios acima... cara vc sabe que raramente alguem vai ler esses textos longos (que eu nao acho que seja) e ainda vai fazer um comentario descente. Desculpe esta saindo do assunto mais e o que acontece hoje na blogosfea e nakela brincadeira da comunidade.
Abraços e mais sucessos pra ti mano

o'Ricci disse...

hehehe... desfecho interessante... Seu estilo é extremamente descritivo, apreciei bastante, na verdade, eu sempre preferi textos longos nos blogs que frequento às porcariazinhas esquálidas e magricelas de 12 linhas que normalmente pipocam por aí.

Aproveitando pra tecer um comentário duplo, porque o texto anterior também é interessante: desde quando padeiros são minoria agora? xD

parabéns, cara, abração.

Larissa Bohnenberger disse...

Ahahahahahahahah!
A história linda de uma família unida. Cada cena descrita perfeitamente. Dava pra enxergar tudo o que ia acontecendo... e quando finalmente o desfecho se aproxima... vem a merda do capitalismo e estraga tudo!!! Ou seria culpa do Alzheimer?
Rsssss! Adorei!
Bjs!

Carol disse...

não faço letras - como a melina hahah. psicologia (:

An@Lu disse...

lindo texto. as descrições na medida, fazem a gente visualizar tudo. no final deu uma peninha da família...

carla m. disse...

nossa, a perfeição das sensações me fez ficar tão chateada pela família...

Silvinha disse...

Que texto singelo! Fez-me querer ler os outros, então vou vasculhar seu arquivo...

Apenas um detalhe: dia de viagem, o pai levantar e se arrumar antes da mulher e das filhas? hahahaha

X)

Carol disse...

coincidências nesse mundão véio sem portêra. hahahah beijos

FERNANDO disse...

Kkkkkkk. Que burro!

Tyler, seu texto foi muito bom, como sempre, afinal, sempre temos que achar um culpado. Quando o achamos, o alívio é imediato!

Agora, devo segredar que o comentário dizendo que o texto é bem político foi excelente! Aquele comentarista é um fafanrrão! Kkkkk

Deus, como tem gente sem noção!

Abraços!

Gilgomex™ disse...

cara... essa foi de fu...

eu entendi, achei que não tinha entendido, aí li de novo e vi que tava certo...

coitado do seu Raul...

e cara, quanto detalhismo na história... muito boma.

taiscarla disse...

eeeeeee... talento!!!

^^

M. [doc] B. disse...

De qualidade sem igual seus textos, moçinho! (:

Carla Moraes disse...

Pois é, da próxima vez é melhor o seu Raúl e a família irem de ônibus...

Anônimo disse...

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