segunda-feira, 10 de março de 2008

Confirmação.

O trem do metrô parou na estação, quase vazia naquele início de noite dominical chuvosa em São Paulo, fevereiro é assim. No último vagão entrou apenas uma pessoa, provocando reações comuns nos passageiros: uma senhora mandou que o neto, ou filho, parasse de brincar pelo vagão e sentasse perto dela; dois garotos que conversavam diminuíram o volume da voz; um casal combinou entre olhares que desceria na próxima estação para esperar um próximo trem; e uma moça de cabelos claros, sentada sozinha, rapidamente segurou a bolsa junto ao corpo, torcendo para que o homem sentasse longe. Ele sentou, não estava perto de ninguém. Vestia uma calça jeans bem velha, assim como os tênis, uma blusa de moletom preta, desbotada, e uma touca cinza de lã na cabeça. Era preto.

Preto, negro, moreno, mulato, negão, afro-descendente. Chamem do que quiserem: do que acharem melhor: do que pensarem ser menos ofensivo: do que expressar mais claramente sua total falta de preconceitos. Podem chamá-lo até de Gérson, mas não é esse o nome dele.

Enfim, o trem continuou o caminho por baixo da terra, normalmente. Na estação seguinte o casal desceu, como previsto. Duas estações adiante entrou um homem, com sua filhinha, provavelmente, que logo se juntou ao corre-corre do menino que já estava ali, deixando louco seu provável pai. E numa estação já depois do fim da Avenida Paulista, a mulher loira desceu, sem perceber que o homem preto fez o mesmo.

Chegando ao fim da escada rolante que leva à superfície, a moça viu que chovia lá fora. Pegou a bolsa e tirou dela o guarda-chuva, abriu-o ainda debaixo da cobertura da entrada da estação do metrô. Mal a mulher colocou o pé esquerdo na calçada, o preto correu por trás dela, puxou rapidamente a bolsa e fugiu, deixando-a desesperada.

Eu sei, e inclusive concordo com você quando me diz que "não é porque é negro que é bandido." Mas esse era.


Tyler Bazz

17 comentários:

taiscarla disse...

nossa, e não é que esse era msm!?
que coisa, não!?

apesar de eu não gostar de vc, tenho que
confessar que seus textos são mto bons... ^^

Sissi disse...

"Preto, bandido, com cara de mal, a sociedade me criou, mais um marginal..."

Acho q seria um bom fundo musical pra essa cena, hein? logo depois q ele pega a bolsa dela e corre começa a música e depois mostra o rosto dele e ele tah maior felizão pq garantiu o jantar do dia.

huahuahuahuah

Na próxima faz um bin laden da vida aterrorizando todo mundo com um pacote de salsicha nas mãos! =P

Marcello disse...

HAUAHUHAUHUAHUAHUAHUAHUAUHAUHA

Final mais inesperado EVER...



Ou não.

Fernando disse...

Sabe o que achei mais legal? Porque o final foi realmente inesperado. Já tava cansado de historinhas contando que "ela se equivocou, e então, ao pisar na rua, foi salva de um atropelamento pelo rapaz negro, que pulou jogando-a no chão e evitando o pior...".

A verdade é que, ser bandido não depende da cor. e acho que isto seu texto passou bem.

Agora, que o texto faz uma puta apologia ao dizer que o bandido era negro, mesmo sem intenção do autor, isso faz. Porque o preconceito e amaldade está nos olhos de quem o vê.

E por isso, meu querido, pelo final inesperado e a coragem do post, meus muitíssimos parabéns!

Abraços!

V.H. de Araujo Barbosa disse...

Eu pensei que ia ser o pai da menina. Droga.

Rob Gordon disse...

Indicação para o senhor no Champ.

SAMANTHA ABREU disse...

o fato não é, mesmo, a cor...
mas a situação (social, econômica, cultutal, etc) que essa raça passou. Se brancos tivessem passado por tudo aquilo.. a situação estaria invertida, tenho certeza.
A vida, o mundo, e a gente deve anos pra que as oportunidades se igualem... e falo muito além de podres vagas em universidades.

Ah, mas isso é polêmico demais.
E teu texto foi sincero pra caramba.
Sincero, direto e nada hipócrita.

Um beijO!

Maria disse...

Realmente surpreendente (o fim do texto). O fato já não surpreende mais ninguém, infelizmente.

Net Esportes disse...

eu vejo uns 30 suspeitos por dia na rua, negro ou não .......

caio arroyo disse...

Muito mais que uma questao de cor é algo social que infelizmente ficou ligado a cor pro dados mais que certos, parabens por publicar um texto assim direto e sincero

♥ Roberta... disse...

A mudança no nome ficou muito legal, show as suas idéias.

A raça da pessoa faz com que muitos a vejam de maneira diferente, confesso que por vezes fiz comentários indevidos em situações diversas, como piada, mesmo sabendo que é um erro de minha parte. Ótimo texto!

Antiga ausência minha e nova postagem no blog! Bom, chega lá e confere! Beijos...

Hélder, o míope disse...

Tem ladrão preto e branco.
Afinal, não é questão de cor, e sim de consciência.

Gostei do texto, e principalmente do final...foi inesperado.

Abração!

Melissa Campello disse...

"Podem chamá-lo até de Gérson, mas não é esse o nome dele."
Gostei. Troféu joinha pra você, vou voltar.

Stephanie disse...

é uma merda isso. Pretos como esse só confirmam máximas preconceituosas como 'se é preto, pobre e mal vestido deve ser bandido' - como desvia a atenção dos ladrões brancos ou até pretos com uma apresentação melhor que jeans e moletom e toca...

legal o texto!
=)

Sr. Sem sono disse...

É interessante o que somos obrigados a ver acontecer. O fato de ser ele preto ou qualquer outra cor seria irrelevante, se não fosse a vontade de surpreender. No fim de quem é a culpa, por que não podemos nos dar mais ao luxo de caminhar pelas ruas de S. Paulo com a cabeça nas nuvens? Tenho saudades dessa paz que nuca vivemos.

Sr. Sem sono disse...

Hey Tyler, te indiquei para um meme - depois dá uma passada no meu blog e dá uma olhada!
Fui

Cinema da Vida disse...

Eita...

Se a cor fosse o indicador de criminalidade, o que falaríamos dos amarelos, dos cor de bufa e dos ruivos?
Oh céus...
Este texto parece ter sido escrito por um baiano.
Kiss