quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O menino do pinheiro.

O menino era filho único e cresceu num bonito apartamento, do segundo andar, de janela com vista para a rua. Na frente do prédio havia um terreno vazio, baldio, que vivia cheio de mato na época das chuvas, cheio de entulho em boa parte do ano.

No fundo daquele terreno tinha um pinheiro, bem grande, que o menino conhecia desde bem pequeno (o menino). De dentro do quarto, ele sempre olhou o pinheiro. Teve medo dele nas noites chuvosas quando era pouco maior que um bebê; perdeu horas olhando seu balançar no vento, anos mais tarde; escreveu até uma poesia que a professora pediu, em homenagem ao pinheiro, quanto tinha uns dez anos. O menino nunca se aproximou do pinheiro, nunca o tocou, mas gostava daquela árvore. Como gostava!

Tinha doze anos o menino quando acordou, numa manhã de segunda, e viu um daqueles tratores que derrubam tudo parado na frente do terreno, rodeado por um bando de homens que pareciam pedreiros, serventes, engenheiro. Os olhos do menino encheram-se de lágrimas; de cara percebeu que ali seria construído algo, provavelmente um prédio como o dele, e seu pinheiro seria derrubado. O menino se vestiu com pressa, passou correndo pela mãe, na sala, sem falar com ela, desceu as escadas para não esperar o elevador e chegou ao terreno baldio, agora cheio de coisas.

Tentou segurar o choro na frente de todos aqueles homens, mas ao perguntar o que é que iriam fazer ali, junto com a primeira palavra pronunciada, as lágrimas fugiram-lhe do controle e ganharam seu rosto. Um dos homens respondeu que seria mesmo um prédio, de quinze andares, maior até que o do menino, que entrou em choque, em desespero, ao imaginar seu pinheiro no chão, morto.

Quando conseguiu, envergonhado, mas muito mais emocionado, explicar a todos aqueles homens o motivo de tanto choro, o engenheiro se aproximou do menino, com a planta do prédio nas mãos. O pinheiro não seria tocado. Estava lá, no projeto. Iam construir até um jardim bem bonito em volta dele. O menino não poderia mais vê-lo da janela de seu quarto, mas morrer o pinheiro não ia.

O menino voltou para casa, tranquilizado, pensando muito. Passou a tarde toda na janela, olhando o pinheiro. Logo um prédio taparia sua visão. Logo pessoas morariam naquele prédio. E ele ia se enfiar por lá. Fosse ficando amigo de um menino de de sua idade, ou cuidando de uma velhinha solitária, ele ia arranjar uma janela pra olhar o pinheiro. Ah, se ia...


Tyler Bazz

22 comentários:

Jeff McFly disse...

Rapaz... não sei porque, enquanto estava lendo esse seu texto, me lembrei do filme "O Ano que meus pais saíram de férias".

Não me pergunte , pq não sei.

Muito bacana o texto. Hasta!

Eilahhh disse...

Em um certo aspecto esse texto foi doce... Maquinalmente doce...

Goste gostei! Wiiiiiiiiiiiiiiiii

beijos =****

Higor Romualdo disse...

Gostei demais da sacada...

Fábio Buchecha disse...

Se esse menino for determinado mesmo ele dá um jeito de fazer os pais se mudarem para esse novo prédio. Aí além de ele estar perto do pinheiro, ele ia poder fazer um amigo da mesma idade, cuidar de uma velhina solitária, arranjar uma namoradinha...

Bacana demais, o texto! =]

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TemPraQuemQuer <<< Entra!

Plynio Lp disse...

ain, cara vc me perdoas...
mas posso deixar meu comentario sobreo texto pra amanha?
bnao to com muita paciencia hoj nao (na real), to aki vendo esses blogs pra ver se me acalmo mas nao ta adiantando nao viu,...prometo q amanha comento algo legal blz?


valew e desculpa

squirrel disse...

nossa,bem queria que as pessoas construisse obras em volta de árvores,seria um mundo bem mais bonito

x D

beijos

♥ Roberta... disse...

Olha lá o Puro Osso perto do nome do blog... show! Como foi legal a atitude do garoto no texto, muito bom. Tenho nova postagem no blog! Se possível da uma passada lá e deixe seu comentário

Euzer Lopes disse...

Estou até agora pensando...
Se um dia um filho meu for 10% do que esse menino é, serei um pai realizado.
Não apenas consciência ecológica, nem aliás quero tocar neste tema panfletário (e chato)! Mas o verdadeiro valor da VERDADEIRA amizade:
Começou com uma rusga (quando bebê, ele tinha medo), mas o tempo foi proporcionando a ambos a CONQUISTA.
E da conquista, gerou-se a CUMPLICIDADE. E dela, nasceu aquele sentimento da PROTEÇÃO, do cuidar, do "fazer de tudo para não maltratar meu amigo querido".
Se um dia meu filho ou minha filha tiver um amigo ou amiga que o motive a ser assim, serei um homem realizado!

Mayna disse...

Nada como o sentimento puro de uma criança. Belas e doces palavras.

http://maynabuco.blogspot.com

Lily disse...

genial

Nayara.... disse...

noossaaa!
interessante esse texto!
gostei muito!

parabéns !!

Flávio Voight disse...

Bonito, Tyler. Me identifiquei, tinha um monte de pinheiros aqui na frente de casa, eu ficava olhando quando era menor.

Só que quando cortaram eu não senti porra nenhuma... =p

Fernando disse...

Depois que levantarem o prédio, pelas minhas contas, este moleque vai estar com uns quinze anos. Daí, quando ele ver a Clarinha, um pouco mais velha que ele, passeando só de calcinha no apartamento deste prédio, ele nem vai mais lembrar que algum pinheiro existe ou existiu. Hehehe.

Abraços!

Larissa Bohnenberger disse...

Lindo!
Me identifiquei bastante... lembro ainda daquela árvore em que eu subi muito qdo era criança.
Hoje nem sei se ela continua lá!
Mas adorei!
A importância que pequenas coisas têm...
Bjs!

Ulisses disse...

Quando eu era pequeno no meu jardim tinha um pinheiro, que era do meu irmão e dois pés-de-goiaba, um deles que assumi como meu pois subia nele todos os dias brincando. Um dia meu pai decidiu cimentar tudo e fazer uma laje... também passei por desgosto igual quando cortaram as arvores. No final do ano a gente sempre cortava a ponta do pinheiro pra fazer arvore de natal. Bons tempos.

Leonardo werneck disse...

Cara, muito bom esse texto!

Zanfa disse...

Uat?! 16000 comentários. =D

Bacana a história do pinheirinho Tyler! Realmente o menino poderia ir lá e dar um abraço na tal da árvore, só esse amor platônico não dá. xD

Maria disse...

É um sentimento belo... Ontem mesmo uma árvore caiu aqui na minha rua. Morreu e causou transtorno: pegou nos fios de alta tensão e cortou a energia. Hoje vieram e serraram outras duas ao lado. Sem motivo aparente. Ou será que o raciocínio foi: "já que existe o risco de árvores cair, vamos cortar todas de uma vez"?

beijos
Outro blog da Mary

Osmar Mesquita disse...

hehe otimo texto....
adorei a historia...
alias estava lendo tb o hora errada e adorei isso:

"Ô, poeta! 'Cê tá na cadeia. O cheiro é de merda. Daí da gradinha só dá pra ver o muro. Então cala essa boca que eu quero dormir!"

kkkkkkkkkk
parabens msmo cara... seu blog e otimo e continue fazendo textos maravilhosos como estes...
abraços

Fláh disse...

"a internet não é uma rede de computadores, é uma rede de PESSOAS."

Nossa, tenho que concordar tbb.

Que bonito a historia, queria um pinheiro assim, da minha janela so vejo um muro mal pintado.

Isa disse...

eu dou sempre um jeito de encontrar meus Pinheiros, tbm... :)

SAMANTHA ABREU disse...

Muito Bom, Tyler!!!
vc anda arrebentando, hein!
Adoro!

beijooO!