quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O Natal dos Ribeiro.

Era 24 de dezembro, dez minutos para a meia-noite. Natal na casa de campo dos Ribeiro. Todos os anos a família se reunia no sítio, que ficava a pelo menos vinte quilometros da cidade mais próxima. Dez minutos para a meia-noite; a mesa já posta, a família toda já reunida na sala de jantar, a paz, a harmonia, a leve embriaguez e a falsidade. Foi quando o Natal daquele ano fez-se diferente de todos os outros.

Faltavam dez minutos para a meia-noite quando a casa foi invadida. Um homem de uns vinte e cinco anos, com uma calça jeans surrada, uma camiseta preta e um boné velho na cabeça, invadiu a casa, armado, gritando para que todos ficassem quietos e calmos, e então tudo ficaria bem. Sem abaixar a arma em momento algum, ele recolheu os celulares de todos ali, cortou o fio do telefone e trancou todas as portas que saíam do cômodo. Quando terminou, observado pelos olhares aterrorizados da família Ribeiro, anunciou: "Eu quero que 'cês faz tudo normal. Que nem se eu num tivesse aqui. Ou que nem se eu fosse da família." Obviamente, ninguém se mexeu e ele teve gritar para que começassem a ceia.

O bandido se misturou à família, sempre com a arma em uma das mãos e o olhar vivo, esperto, correndo por todos os cantos e rostos da sala. Poucos minutos antes da zero hora, a família se reuniu em volta da mesa, cheia de comida, e rezou. Ele participou como se fosse um deles, de mãos dadas, tendo à sua esquerda a Tia Lúcia, conhecida na família por ser uma louca desvairada que pensava ter vinte anos, e à sua direita, dividindo a mão com a arma, Verinha, de onze anos, a filha do meio de um dos filhos do casal Ribeiro. Depois do amém, a família já se sentia menos tensa com a presença do marginal. Não estavam tranqüilos, mas boa parte deles tinha parado de tremer e pensava só em conseguir manter a paz no Natal.

Sentaram-se todos para comer. Não havia lugar na mesa para o bandido, mas isso foi logo resolvido. O filho mais velho abriu mão de seu lugar, ao lado direito do senhor Ribeiro, para que o visitante não precisasse ficar no sofá. Todos comeram, saciaram-se, e o bandido, sem largar a arma, comeu umas três vezes mais que qualquer um ali. Até mesmo Luís, o neto de vinte anos da senhora Ribeiro, lembrado por seu estômago sem fundo, ficou espantado com o apetite daquele homem. Quando engoliu o último pedaço de peru e bebeu o último gole de champanhe, o bandido olhou pela sala. Todos meio parados, uns conversando baixinho, as mães impedindo as crianças de correr. Ele se aproximou do senhor Ribeiro e perguntou, cochichando: "o que 'cês faz depois de comê?" O patriarca respondeu, um pouco nervoso por aquele contato direto: "bem, nós entregamos os presentes."

"Hora dos presente!", o bandido gritou, deixando as crianças animadas. "E eu nem vô ficá bravo se num tivé um pra mim." Todos trocaram os presentes, fingiram surpresa, fingiram agrado. A família fazia o que podia, mas era impossível ignorar a presença de um homem estranho com um 38 nas mãos. Apesar de tudo, as coisas aconteceram como tinham que acontecer, sem nenhum incidente. As crianças brincavam com seus presentes, os adultos invejavam os dos outros. Então o bandido levantou-se, indo em direção à porta de saída, a mesma que ele usou para entrar, "Bom gente, eu vô indo embora. Valeu pela comida aí."

A família toda estranhou aquilo. Todos se entreolharam, a mesma pergunta pairava em todos os rostos. O filho mais velho, aquele que cedeu o lugar na mesa, esboçou um sorriso, percebido por alguns. E o filho mais novo, famoso por sempre pensar mais nos outros do que nele mesmo, fez a tal pergunta ao bandido: "Mas, como assim? Você não vai roubar a gente nem nada?"

"Não, num vô não", ele respondeu. "Sabe, eu tô preso faz seis ano. Desde que eu tinha dezenove. Minha mãe morreu quando eu tinha dez ano, meu pai eu nem conheci. Ele fugiu cuma neguinha da favela quando minha mãe falô que tava grávida. Eu num sei nem se eu tive um Natal de verdade alguma vez. Eu só queria isso. Ainda bem qu'eu achei voceis."

"Mas, se você tivesse falado, a gente abria as portas pra você. Te dava um Natal de verdade. E até melhor, sem essa coisa de arma...", a senhora Ribeiro tinha lágrimas nos olhos.

"É só assim que eu sei fazê as coisa, dona." Jefferson respondeu e saiu, deixando todos na sala com um forte ar de tristeza no rosto. Até mesmo o filho mais velho do senhor Ribeiro perdeu o sorriso e baixou a cabeça, em parte envergonhado, em parte deprimido.

Nem dez segundos se passaram quando Jefferson abriu a porta novamente, transformando a tristeza no olhar da família em surpresa. "Aê, seu Ribeiro. Sabe aquele relógio bonito que o senhor ganhô? Aquele dorado... passa pra cá vai. Só pra num perdê a prática. Feliz Natal aê galera." E foi embora.


Tyler Bazz
(to ali em Sampa, chego no sábado de manhã. qualquer coisa me achem no orkut)

22 comentários:

Marcello disse...

Juro que isso não me é estranho... acho que não era de natal, mas já li/vi algo assim :D

E tem também aquele filme com um daqueles atores de comédia romântica que que ele paga uma família pra ter um natal e talz... vai ver que é daí que eu lembrei uhhuhu



E sobre o post anterior, parabéns, Putoooooooooo \o/

Fernando disse...

Muito bom, Tyler! Como sempre.

Cômico, dramático e cômico novamente, sem deixar a peteca cair. Suas legítimas e sutis observações fazem a alegria deste blogueiro aqui, rapaz! "...a família toda já reunida na sala de jantar, a paz, a harmonia, a leve embriaguez e a falsidade.". Mais similar a (com ou sem crase? Ah, foda-se.) realidade, impossível!

Precio falar ainda da falta do plural, a implicância com as letras esses é fantástica e ficou muitíssimo bem retratada.

E, como se diz no ditado popular: "pau que nasce torto, nunca se endireita!". (Ou foi o Tchan da Carla perez?)

Abraços, Tyler! E bom carnaval!

Ah, sobre o selo da campanah contra a pirataria na blogosfera, entrei no blog do Rob Gordon e entendi. Mas me resta uma dúvida técnica: como fazer o que você fez, de colocar uma imagem com texto e link embaixo? Honestamente, não sei. Dá pra me ajudar? Hehehe.

Hélder, o míope disse...

Pra quem quer um natal diferente...heheheh

Deu até pra imaginar a cena.

E pedir o relógio no final...kkk...sacanagem com Seu Ribeiro!

Muito bom veio.
abç.

Gilgomex™ disse...

tenho certeza que se o Jefferson non tivesse com a arma, eles não íam chamar ele pra dentro não, íam dizer que não tinha nada pra ele ali e talvez dar um prato de comida... ou talvez chamar a polícia.

Fernando disse...

Rapaz, se o seu foi de pedreiro, o meu foi de servente dele. Afff.

Hehehehe.

Ramon Mulin disse...

Aí tyler, esse aqui não vale só pra você não hein! Também é pra Bárbara aí, que te ajuda pacas! Pega lá no meu blog, estou te premiando (o 3º, rsss), pega o selo lá!
Abraços!

Ahh! Falta a fotinha da Bárbara aí no blog, ela é tão anônima, aparece mulher!!!

SAMANTHA ABREU disse...

Uau!
um dos seus tops!

adorei,.
beijo

Gabrielle disse...

Nossa, muito bom o texto! Um dos melhores que eu já li aqui no teu blog. Parabéns!
Quero agradecer pelo selo, valeu mesmo! Daqui alguns dias coloco ele no meu blog.

Beijão! E bom carnaval!!

Larissa Bohnenberger disse...

Ótimo texto!
Pobre Jefferson! Só queria um Natal em família e no final, um relógio para não perder o costume.
Adorei!
Beijos!

Bruno disse...

Uau!
um dos seus tops! [2]

o/

Portal disse...

Parabéns pelo seu texto. Gostei muito! Abraços.

Foi bom prá mim! disse...

me identifiquei demais! tb passo longe da minha família, portanto sou sempre intrusa na ceia dos outros. Em 2006, o tio do meu amigo perguntou onde tinham arrumado uma empregada tão bonita! rs

EDUARDO GOMES disse...

Bem clichê, mas muito legal, principalmente quando o bandido volta para roubar o relógio.

post muito bom.

vlw.

Ju disse...

mto legal seu blog... comenta nu meu tbm: http://jubs-place.blogspot.com

Fer Pocow disse...

Bom, bem comovente, e mostra um família bem estruturada e uma família que num deu certo, e acabou dando o que deu na vida do Jefferson, mas o final é bem engraçado.

Abel disse...

Esse conto é um tiro no estomâgo nas idéias pré-concebidas =)
A história roda, e o final não é bem o esperado no início.
Parabéns.
Abel.

With flavor of... coconut disse...

Vc vai gostar!
Estou com um novo blog, que vai contar histórias reais de Samy!

Quero um numero de pessoas para começar a postá-las.
^^
http://www.meusprestigios.blogspot.com/

Comenta lá!!
Conto com vc

Brigadãoo

kisses

Gabriel Leite disse...

Não tem como se identificar. Todo mundo que tem família sabe bem o que é isso. rs

E porque não a Thalita? Ela era linda, usava óculos das melhores marcas e tinha o gênio forte. A melhor!

A_for_Anetta disse...

Nossa gostei muito da história, apesar de meio que prever o final...

E parabéns pelo post anterior, qndo ficar rico e famoso (que pode SIM acontecer) não esquece da tchurminha... Quando eu for uma estilista famosa eu vou fazer várias camisetas de PUTO! bem glamurosas AHUAHAUAUAUAHAUAUA ;D

=*****

taiscarla disse...

finalmente coloquei a leitura do seu blog em dia...

hmmmm
mto bom como sempre

e dos últimos q eu nao havia lido,
o q eu mais gostei foi o poeminho
mtoooo bom msm!!!

see ya

Fernando disse...

Tyler, como vi que a coisa é trabalhosa e sei que você tem muitas indicações, não sei se vai te importar, mas indiquei seu blog novamente lá na Coluna.

Abraços!

mary disse...

Que crônica! Cômica e trágica como a vida... resumindo, linda.

beijos!