quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Cervejas, Piratas e Sangue - Final

(primeira parte? Clique aqui!)

Foi rápido, não tão silencioso. Minha cabeça, em menos de um quarto de segundo, percorreu o um metro e setenta que a separa do chão. Eu estava caindo e sangrava. Sangrava muito, muito mesmo. Amparado pelos amigos, comecei a ouvir as especulações. Alguns acreditavam ter sido um ataque, outros cogitaram causas sobrenaturais, falou-se até que um tiro foi ouvido. Outra hipótese levantada foi a de que eu havia escorregado no chão, totalmente escorregadio devido à maldita chuva que caía há horas. Enquanto Geléia me ajudava a estancar o sangramento, procurei acalmar todos os presentes, repetindo que eu estava bem. Quando olhei o ferimento, pude compreender a preocupação o desespero de todos. O corte era enorme. Olhei nos olhos de Geléia e disse: "Preciso de uma costureira."

A dor não parava. O sangue continuava a jorrar e comecei a me sentir fraco. Acalmei mais uma vez os presentes, minha voz uma oitava acima do normal, "Estou bem. Fiquem calmos." Então saímos para acabar de ver com o maldito sangramento. O caminho até o hospital foi tranqüilo, Marcello é um ás do volante e não há pista molhada que o atrapalhe.

Chegamos ao hospital, o melhor da cidade, particular. Um funcionário, assustado com minha presença e com o tamanho do ferimento em minha cabeça, me levou imediatamente a uma sala de atendimento e pediu que esperasse uns poucos minutos. Agradeci-o e me deitei na maca. Pouco tempo depois, enquanto uma enfermeira arrumava o material a ser utilizado, outro funcionário do hospital entra, informando-me de que eu não tinha direito a ser atendido naquele hospital, que eu deveria procurar outra unidade de saúde.

Levantei-me, olhando bem nos olhos daquele homem, passei o braço esquerdo em volta de seu ombro e fui levando-o para fora da sala:

"Não vamos tratar disso na frente de uma dama, certo?"

"Não tem conversa. Se eu deixar passar, eles vão cobrar de mim."

"E qual vai ser o grande gasto? Um pedacinho de linha e uma agulha?"

"Não interessa", ele mostrou alguma grosseria, "Você tem que sair."

"Escuta aqui, meu jovem. Eu compreendo seu nervosismo. Você cumpre ordens e regras. Mas não vejo mal algum em você me fazer esse favor, impedindo-me de enfrentar até horas de espera num outro hospital." Olhei em seus olhos. "É bem difícil, eu sei, trabalhar aqui a noite toda e deixar sua mulher e sua filha sozinhas em casa, desprotegidas. E nenhum de nós dois quer que aconteça algo de ruim nem a mim nem a elas, certo?"

Ele engoliu em seco, me olhando assustado. Dei um tapinha leve em suas costas e voltei para a sala onde seria atendido. Ele não me importunou mais. Pouco tempo depois, já deitado, ouvi uma voz diferente entrar na sala e olhei para ver. Uma mulher, de mais ou menos um metro e sessenta e cinco, cabelos pretos, longos e lisos, magra, era a médica. Quando virou-se, vi o mais belo sorriso em um raio de bons quilômetros. Sim, aquele hospital foi uma ótima escolha.

A médica olhou-me no rosto e disse algo para a enfermeira. Pensei ter sido "Ele é o homem mais lindo do mundo. Ai ai ai, me segura!", mas meu cérebro logo interpretou o que realmente foi. "Foi um corte bem profundo. Vou fazer uma sutura." Ela voltou-se para mim novamente, limpando o ferimento. Então me perguntou:

"É alérgico a alguma coisa?"

"Hospitais. Mas meus sintomas sumiram quando você entrou aqui."

Ela riu, enquanto preparava a anestesia. Um pouco envergonhado, eu disse:

"Olha, preciso te avisar. Eu tenho medo de.. agulhas."

"Sério? De agulha? Por quê?"

"Um medo ou outro a gente tem que ter, certo?"

"E do que mais você tem medo?"

"Além de agulhas? Só de mulheres como você."

Ela respondeu só com um sorriso. Então se aproximou de mim, e o que seguiu foi algo que eu jamais esqueceria em toda minha vida. Sua mão direita tocou meu rosto, e ela deu-me algo que só alguns poucos homens no mundo têm o prazer de receber: uma injeção na testa!

Não uma apenas, mas umas quatro ou cinco. Sim, porque quando você tem um corte do tamanho do Euro Túnel em seu supercílio, você precisa de uma anestesia. E ali estava minha testa, pronta para se tornar vítima da tão falada injeção, que deve ser dada de graça. Depois que a medicação fez efeito, tudo foram flores. Com alguns espinhos, é verdade, pois a cada um dos sete pontos eu sentia uma dor inesperada.

Terminado o serviço, levantei-me da maca enquanto ela foi preparar a receita de algum remédio que eu teria que tomar. Ela voltou, me entregou a receita, e eu lhe disse: "Se eu gostar do resultado, você certamente receberá um belo presente em casa." Ela tentou entregar-me um cartão, onde vi que havia um número de telefone anotado, recusei. "Eu te acho se precisar..." Virei as costas e saí. Encontrei Marcello no saguão e fomos para o carro, sob o respeitoso olhar do funcionário que me atendeu anteriormente.

No caminho de volta, sem dor, peguei o telefone e liguei para Cris, uma das belas damas que presenciaram o ocorrido. Tranquilizei-a sobre meu estado, contei a história da injeção na testa (que todo mundo, com certeza, vai me ouvir contar), e desejei a ela uma ótima noite de sono.

Marcello e eu chegamos à minha casa, servimo-nos de uns bons pratos de macarrão e do melhor vinho tinto da adega, e jantamos, falando de cervejas, piratas, encontros e desencontros.

Tyler Bazz
ps: vejam o estado que ficou minha cara aqui!

15 comentários:

Marcello disse...

E que macarronada... não comia um exemplar tão bom assim desde a reunião de cúpula em 2006. Sem falar no vinho, de nobríssima safra e praticamente exclusivo, de produção altamente limitada.

E quer saber? Na euforia, esquecemos dos queijos e dos charutos.

Fernando disse...

Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Muito bom, Tyler, muito bom! Não tinha entedido porra nenhuma até ver a foto e sua descrição!

Mas, Tyler, e a médica, meu Deus? Se ela gostou de você com, digo, sem supercílio (porque, daquele tamanho, não era um corte no supercílio. Era um supercílio no corte.), por que a dispensou?

Considere algo, o Capitão Jack Sparrow jamais faria isso!

Cíntia Freitas disse...

"Eu te acho se precisar"?!! Nossa meeeeu, como assim?! To apaixonada. HuahuHAUHuhahUHA!!

Roberta Andressa Mondadori disse...

Perai, quem acabou com a cerva da primeira parte? Ficou sem resposta!

Nossa, que corte...melhoras!

=**

Marina disse...

Eu já levei uma injeção na testa :D

Rafael Portillo disse...

Dei uma lida rápida. Sabe como é, falta de tempo.

Entretanto, tomo a liberdade de salvar a página para ler melhor o texto.

Até aqui, você escreve muito bem. E é assustador pensar que é baseado em uma história real.

Gabrielle disse...

A pergunta que não quer calar: Tyler procurou a enfermeira novamente?
Huahuahuhaua.
Nossa, mas foi um puta corte! E creio que a melhor parte foi comer macarrão com vinho :D

Beijo!

Paula Fernnandes disse...

Gostei muitissimo da sua maneira de escrever! parabéns!!!

Vou te adicionar a minha lista de favoritos, posso?!

Beijos!

Flavinha disse...

Gente, pára tudo!!

Li a primeira parte, a segunda... acreditando que tudo não passava de um conto. Aí, no fim das contas, descubro um link que leva direto às provas do crime - ops, aos cortes do seu rosto...

Tenho uma atração fatal por agulhas e cortes que precisem de pontos. Não, eu não curto sadomasoquismo, não me entenda mal - é que, a exemplo da moça da sua história, eu também sou médica, e do tipo que troca qualquer coisa por um bom e movimentado plantão no setor de urgência e emergência. Mas, ao contrário dela, nunca tentei paquerar em horário de serviço - minha santa avozinha já dizia que onde se ganha o pão não se come a carne.

Melhoras pra vc.

Beijos pra sarar.

PS: Veríssimo, rock'n roll e cerveja rules...

Bruno disse...

Pode até deixar de procurar da médica, mas pelamordedeus não deixe de descobrir o salafrário que roubou as cervejas.

Carla Zague =) disse...

Poxaaa, li as duas partes, e me surpreendo com tamanha tranqüilidade..
hahaha ;x acho que no meu caso, entraria em desespero...
maaas, de grátis até injeção na testa. =)

enfim, passando pelo blog, e registrando que gostei, super de boa..


take care!

Gilgomex™ disse...

é a maldição do pirata...

ou a maldição do chão liso...

fiquei até com medo de ver piratas do caribe 4!!!!
com certeza, o Sparrow original vai cair tb...

taiscarla disse...

hahahahahaha

mto bom como sempre!
adoro o jeito q vc descreve!
hahahahahahaha

e vi a foto... omg!!

bjins

...

нєηяιq disse...

cara, muito boa a historia

o mundo precisa de gente que nem tu pra contar boas historias :D

mas e a medica cara?

Anônimo disse...

Bem narrado!Adorei.Tyler..conheci um no Paltalk,faz 3 anos.Seria vc?..as melhoras.bjj:)
Mira Sorvino