quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Conversa de ônibus.

O ônibus chegou à estação. Ele subiu, escolheu o lugar, sentou. Alguns segundos depois, sentou-se ao lado dele uma senhora; uns cinquenta anos, cabelos grisalhando, sacola de compras, umas duas, um leve cheiro de cigarro.

O ônibus sai para as ruas. "Mas que calor, não?", a velha diz. Ele não responde. Apenas continua olhando para a janela, distraído com as fachadas do comércio e com as pessoas carregando suas bolsas e compras e crianças. No primeiro ponto, sobe uma mulher e ele se perde pelo seu corpo, escultural. Ah, aquilo sim era um corpo de mulher. Ah, o que não faria com uma mulher daquelas. Seus olhos e seus pensamentos só saem da mulher de corpo para encontrar os olhos verdes de uma garota que entrou em outro ponto. A menina devia ter seus dezessete anos, e tinha o rosto mais perfeito que ele já tinha visto por todos os seus vinte vividos.

Quando o ônibus passa em frente a um cemitério, ele vê graça nas pessoas que fazem o sinal da cruz; vê tristeza nas pessoas que têm queridos ali; vê medo nas pessoas que temem mais que tudo estar ali. Ele só não vê que a velha se abana feito louca com um tablóide de loja de eletrônicos. Realmente, devia estar muito calor.

Na avenida íngreme a velocidade é menor, e ele repara que algumas árvores foram podadas, e no cachorro da dona da banca de revistas, que está solto. Vê que a sorveteria está bastante cheia, mas nem lhe passa pela cabeça que pode ser culpa do tempo. Passa por uma igreja, muita gente fazendo de novo o sinal da cruz. Mas dessa vez ele não vê tristeza nem medo, só pecados.

Em silêncio, em pensamento, se despede da mulher do corpo, esperando nunca mais vê-la. Despede-se também da garota do rosto perfeito e de toda sua linda perfeição, e ela sim ele pensa que poderia encontrar mais vezes no ônibus. Quem sabe até fora dele.

Levanta, arruma a roupa. Joga a mochila nas costas, dá o sinal. Olha para a velha, continua olhando em seus olhos por uns segundos e, quando o ônibus finalmente pára, diz-lhe: "Não acho." E desce.


Tyler Bazz
(ouvindo Backyard Babies)

10 comentários:

A_for_Anetta disse...

Emoção é andar no ônibus de Schimidt domingo 7h da manhã... Tem até mano dançando funk ao som do celular... Pois eh, é a extensão do inferno! x.x

Victor the Stranger disse...

Pelo menos em Rio Preto vcs podem sentar no ônibus! ;/

ô saudade da santa luzia.

e ficar reparando em menina bonita no ônibus é praticamente um esporte nacional.

Marina disse...

que calor?

Leticia disse...

Mal posso esperar para ler algo do tipo: "O discurso no supermercado"

HAWEIRHIRAEWHRAWEUH

beijos ;*

Marcello disse...

CALOR??? NEM SEI QUE QUE É ISSO! HuhAuahUHAUhAU



Eu não ando de ônibus faz um tempinho já.

Botão World's disse...

Eu tbm nao ando de onibus ja faz um BOM tempo!!!
^^

Arthurius Maximus disse...

Fantástico texto. Fiquei imaginando a cara da velha achando o cara maluco.

taiscarla disse...

Adorei, ty

um dos melhores q eu li...

vc eh bom, hein, garoto!!!

bjins

...

Eleanor R. disse...

Suspenso no seu observar das vidas que lhe escapam e que, talvez, lhe penetrem - o tempo como uma questão individual.

João Glambriel!!! disse...

Seim Seim...to com blógui agora...... bendito ócio!!!
huhuhuhuhuh