sábado, 12 de maio de 2007

Um mês.

I

O crime de Otto foi descoberto na hora exata. Sem tempo para que ele fugisse ou para que desconfiasse de qualquer investigação. Seus cheques e documentos falsos vinham sendo perseguidos e coletados com calma, com perícia. Era um mestre dos golpes, mortal nenhum era sequer capaz de ver desconfiança em seu sorriso, ou em seus cabelos longos, ou em seus olhos azuis de lentes de contato, ou na expressão introspectiva, ou nos óculos de armações grossas...

Mas aquela polícia que o pegou não tinha mortais em seu time. Eram os maiores mestres em prender mestres. Desconfiavam só de quem já estava sob investigação, e eles nunca erravam. Nunca.

A prisão foi feita na madrugada. Um beco, uma cidade fria. Seus elementos preferidos de filmes agora eram parte de sua história, sua depressão.

II

Após burocracias políticas e jogos de poder, conheceu finalmente sua cela definitiva. Mais fria que a cidade onde foi pego. Mais escura, mais sozinha. Tinha sua cela particular, afinal não é todo dia que o presídio recebe um morador com tanta instrução. Nem mesmo o governador que deu a notícia de sua prisão na Tv era tão diplomado. Somente entre os homens que o prenderam era possível encontrar alguém tão bom quanto ele. Mas só um ou dois, não eram muitos.

Não fez amigos na cadeia. Nem quadrilhas. Se podia ficar na cela, era lá que ficava, afundado em livros e revistas. Literatura, direito, atualidades. Suas paredes eram forradas de poemas, em vez das mulheres nuas das outras celas. Quase não comia. Não precisava de energia. Nada de trabalhos físicos, as maiores caminhadas não eram maiores que o corredor central do presídio.

Em cinco anos, envelheceu vinte. E então foi solto.

III

De volta ao mundo, descobriu que sua pena era muito maior que cinco anos de reclusão. Era o resto de sua vida. Não sabia mais viver em liberdade, sem a rotina constante da cadeia. Sentia falta do toque de despertar, da contagem, do café da manhã, das horas de leitura até o almoço, e das horas de leitura depois dele, até que se apagassem as luzes. Seu corpo se atrofiou e ir ao supermercado se tornou a mais forte das torturas conhecidas. Nem à banca de jornal ele ia mais. Seus olhos já não liam. Não saía do apartamento, passava os dias e as noites olhando pelas grades da janela que mandou instalar em sua primeira semana livre. Olhava a cidade mas não a enxergava, nem mesmo ouvia as buzinas e os motores dos carros, nem a gritaria das pessoas. Seu vocabulário se reduziu ao obrigado que dava à vizinha que, compadecida, todos os dias lhe levava comida e água.

Cinco anos e um mês após sua prisão, Otto morreu. Livre, cego, surdo e mudo.


Tyler Bazz
(ouvindo Thunder Express)

5 comentários:

Marina disse...

poor Otto.

Marcello disse...

Lembrei de À Espera de um Milagre, do velhinho que se suicida depois de sair da cadeia! :D
Cara... já sei quem vai arrumar o assunto do meu livro ;xxx

Pathy disse...

Isso me lembrou Hercule Poirot! :)

já pensou em escrever um livro?

Isa! disse...

Bem interessante!
Pra mim é uma metáfora, é como
usamos a vida, muitas vezes,
se segura no passado porque ele foi melhor, e é seguro, por ser conhecido. Espero que não esteja viajando na maionese. :P
Mas acho que me identifiquei um pouco.. Parabéns pelo texto!

Diego Moretto disse...

Puxa, gostei cara, vc escreve bem msm. Parabens...!!